Não por falta de compromisso com o leitor ou preguiça no exercício diário de praticar artigos os deixei por um dia (sábado). Estive ontem às margens do Rio Sono, na entrada do Jalapão, às vésperas dessa segunda, dia 5, dedicado ao meio ambiente.
Esse rio (que você vê aí na foto de cima) pode virar um lago (como estes que já transformaram a maior parte do rio Tocantins). Nele, o governo (Naturatins) aprovou a construção de mais uma hidrelétrica (hidrelétrica Monte Santo, do grupo baiano EC Brasil), ignorando ou fazendo vistas curtas (ou grossas) a tudo que ela pode alterar na natureza de uma das regiões ainda consideradas preservadas no país e no mundo.
É ali onde se conserva uma das paisagens mais belas (e intactas) do planeta, como o Jalapão. É um rio que ainda abriga o pato Mergulhão, uma das espécimes em extinção na terra (haveria apenas 250 aves dessas no mundo). Tudo evidentemente será alterado com a formação de um lago e o manejo da água, tanto a montante como a jusante. A pergunta é: o quê e a quem interessaria?
O argumento? O de sempre: o país necessita de energia e o Estado dos investimentos. A mesma fundamentação que já acabou com tantos rios do Tocantins, como o Palmeiras (no Sudeste), no Manoel Alves e ali mesmo, o rio Balsas/Mineiro (Isamu Ikeda) que já desemboca no mesmo rio Sono. Sem qualquer contrapartida razoável para o Estado.
Ou ainda o rio Tocantins, sem que a população tenha recebido qualquer benefício que não a doação de seus recursos naturais “ao país” e dinheiro aos investidores. E a produção de energia que será vendida a preços mais elevados ao consumidor dado o tipo de hidrelétrica a ser construída, elevando a renda de grandes grupos econômicos.
Diz-se que se discutiu o assunto em audiências públicas. Uma falácia. Uma vergonha. Pergunte a qualquer sertanejo que more e viva do lugar que terá a resposta na ponta da língua sobre o que pensa do empreendimento. Mas governo e empresários dizem que está tudo dentro dos conformes. E deve estar mesmo do ponto de vista formal.
No país da atualidade, a Operação Lava-Jato está expondo como se forma estes consensos e como se adequa tecnicamente projetos de tal natureza, como é o caso das propinas da Hidrelétrica de Belo Monte. Um dos técnicos do governo do Tocantins, responsável por análises do gênero no Naturatins, refutando críticas deste blog ao projeto Monte Santo, disse-me dias atrás, com condição de confidencialidade e anonimato, que também não concordava com a hidrelétrica, mas que a decisão já “vinha pronta”.
Do ponto de vista da exploração, é uma burrice sem tamanho do governo. Há países no mundo que dariam tudo parar ter uma região como essas e explorá-la de forma adequada. Imagina um turismo por esse rio, a pesca esportiva, a canoagem, as matas.. tão próximos da Capital com um aeroporto internacional, uma ferrovia... Algo que traria mais dólares a mais gente do que reais a poucos empresários.
Mas até a conscientização de moradores e, especialmente, de parlamentares (vereadores, deputados estaduais e federais, e senadores) essa farra com o meio ambiente continuará. Existem estudos para a construção de mais 32 PCHs no Estado e que somadas às pequenas centrais hidrelétricas (15 em estudo) e mais 16 usinas hidrelétricas projetadas, o Estado exportará uma quantidade relevante de energia, mas acabará com seus recursos naturais.
Basta lembrar os projetos das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) em estudos: Manuel Alvinho II, no Rio Manuel alvinho; Cavalo Queimado, Rio Manuel Alves; Manuel Alvinho, Rio Manuel Alvinho; Barra do Mambo, Rio Manuel Alves; Rio da Conceição, no Rio Manuel Alves; Cachoeira, Rio Inferno; Silvânia, Rio Inferno; Doido, Rio Palmeiras; Opção, Rio Palmeiras; Piarucum, Rio Inferno; Manuel Alves, Rio Manuel Alves; Caetana, Rio Palmeiras; Perdida I, Rio Perdida; Soninho, Rio Soninho e Arara, no Rio Soninho.
Ou ainda as usinas hidrelétricas em estudos Perdida II, Rio Perdida; Barra do Palma, Rio Palmas; Pau d´Arco, Rio Palma; São Domingos, Rio Paranã; Natividade I, Rio Manoel Alves; Brejão, Rio Sono; Cachoeira da Velha, Rio Novo; Arraias, Rio Palma; Paranã, Rio Paranã; Balsas I, Rio Balsas Mineiro/Ponte Alta; Novo Acordo, Rio Sono; Rio Sono, no Rio Sono; Tocantins, Rio Tocantins; Tupiratins, Rio Tocantins; Santa Isabel, Rio Araguaia e Serra Quebrada, Rio Tocantins.
Conclusão: produziremos energia aos borbotões, as tarifas continuarão as mais altas do país e acabaremos com nossa principal riqueza: os recursos naturais abundantes em praticamente dois biomas: cerrado e Amazônia. Como disse, UMA VERGONHA!!!!!!


