Em um governo que pretende ser  municipalista, deve ocupar as conversas no núcleo político do governo o novo espectro de representação que saiu das urnas nos municípios no domingo passado. É, certamente, circunstância para Mauro Carlesse fazer emergir sua natureza camaleônica como os adversários o qualificam de forma pejorativa. Ainda que mudar de cor para o réptil represente uma forma de auto-defesa necessária e não uma anomalia de uma espécie de edifício moral.

Não é desprezível o índice de 64% de renovação nas prefeituras, os cerca de 90 prefeitos eleitos por partidos não fechados (por enquanto) com o Palácio e os 71 chefes de executivos municipais em apenas três partidos: Democratas, MDB e PSD. 

Diferente do senso comum de que pudesse ser mais fácil a cooptação por menor pulverização (e diferenças pontuais entre as três legendas), pode ser um dificultador porque tiveram os partidos, individualmente, aumentado capital e, com ele, a perspectiva de poder político. Nos Estados o poder perseguido em maior escala é justamente o governo, buscado até por senadores.

É um resultado que certifica a desaprovação do Executivo estadual (identificado nas pesquisas Ibope/Vetor/Big Data) mas também pode espelhar uma estratégia do governo de optar por apenas um gasto e entabular conversação já com prefeitos eleitos, sem operar mais desgastes (e despesas) ao governador interferindo em pleitos paroquiais. 

Exceção a Gurupi, observada, sem qualquer dúvida, como ponto de honra a Carlesse. Seja pelas duas derrotas sofridas no mesmo pleito (eleições municipais) para o atual prefeito, seja por registrar o domicílio eleitoral do Chefe do Executivo estadual. 

Ainda que governadores como Siqueira Campos, Moisés Avelino ou Marcelo Miranda (governadores eleitos) não tenham operado de forma tão explícita em Palmas, Paraíso e Araguaína quando ocupantes do Palácio Araguaia.

Tudo indica que Mauro Carlesse avançou apesar da derrota municipal. Prefeitos não sobrevivem sem governo e a oposição não tem projetos e segue dividida. Tanto na estratégia quanto nas vontades.

Existem equivocos monumentais do governo, mas do outro lado, o oponente (no Palácio), queiram ou não, administra as ações do MPE, superou os delegados que o acossava fazendo discricionário de funções, tem organizado as contas públicas (devolveu a relação despesas pessoal/RCL a índices de uma década atrás) e gerado superávit financeiro e orçamentário.

Mantem os vencimentos dos servidores em dia certo, o tal Servir (que substituiu o Plan-Saúde) tem prestado um atendimento muito melhor que o anterior (fato notório), organiza frentes de obras como a ponte de Porto, duplicação das rodovias Palmas/Paraíso/Porto e não saiu-se tão mal no combate à covid-19 até aqui. E distribuiu centenas de milhares de cestas básicas na pandemia e ajuda financeira a sem-renda.

De outro modo: Carlesse entra na segunda fase de seu segundo mandato mais forte do que entrou, considerado este ponto de observação. Nada mal para um deputado que por pouco não foi eleito (2014), menos de dois anos depois (julho/2016) derrotava o então presidente do Legislativo (17 a 7) - alterando a relação de forças e o status quo de velhos políticos - e assumia o comando da Assembléia de onde já mirava o Palácio. Chegar ao cargo de governador era, portando, questão de tempo pois já havia uma estratégia política muito objetiva, ainda que o acaso o tenha antecipado o projeto.

Não são apenas flores o que a oposição tem pela frente para derrubar o projeto de Carlesse de eleger-se senador e ao seu sucessor daqui a dois anos. Ou seja: seu desempenho não é resultado apenas do que os adversários consideram natureza camaleônica que, no caso, é, contrariamente, um ativo dado a capacidade do Governador de manter o poder sem juntar-se às feras e a seus pleitos de forma mais explícita.

 

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