O amigo (de mais de quatro décadas), poeta e jornalista Gilson Cavalcante, deixou-os na madrugada desta terça-feira, dormindo, no seu refúgio em Taquaruçu. Enfrentava problemas renais e respiratórios. Tínhamos combinado para que, a partir deste mês, ele fizesse cobertura política para o blog. Necessitava de ocupação e era, sem dúvida, um dos melhores jornalistas políticos do Estado.
Como também o considerava o maior poeta universal da região Centro-Norte do país. Sua literatura foi incluída, recentemente, entre as melhores de língua portuguesa. Fui honrado pelo Gilson a prefaciar duas de suas 11 obras:O amor não acende velas (canção do corpo ausente) (2021) e a última, no ano passado, Descompássaro (a sinfonia solitária sobre os abismos). E que reproduzo em sua homenagem dada a dificuldade para elaborar sentimentos e raciocínios neste dia.
Em O amor não acende velas, o texto hoje parece-me uma antevisão:
Como a vontade não pode ser chamada causa livre, mas unicamente necessária (Spinoza), na expressão de um modo definido de pensar, O amor não acende velas (canção do corpo ausente) – mais recente obra do poeta/jornalista Gilson Cavalcante ainda no prelo – pode ser observada (por semelhantes e dessemelhantes) como portentosa contradição e periféricos paradoxos humanos, demasiadamente humanos (na expressão nietzschiana) sob a perspectiva da vontade de poder, apolonismo ou variações dionisíacas que segue (e sempre seguiu) sem amarras.
(...)
É nítido o sentimento da morte, por conexão necessária da razão, funcionando como próprio antídoto à sua certeza de que temos, por reflexão, consciência e, não raro, produto de nossas próprias inflexões cotidianas, bem apropriadas na poesia e vida de Gilson Cavalcante.
Tão expressa em Entre a vida e a morte a lâmina afiada do corte Teatro I (Eu sou sua vida, vivo pra morrer nos outros/Sem mim não haveria a reencarnação). Ou no Poema do isolamento (Amo o que me falta e me ausenta/Sou o outro que me sustenta.). Poder-se-ia intuir que Gilson faz em O amor não acende velas uma espécie de prelúdio e epílogo de uma trajetória (Sou filho do meio ambiente/do meio das pernas e aberto pro mundo ou As minhas noites têm sido em claro./Aliás, parte delas, porque é a madrugada que me abraça e me acorda para sussurrar palavras em chamas.)
Não nega pecados, antes os confessa (Três terços me fazem inteiro nas premissas que julgo possíveis/Para ser santo preciso pecar minhas urgências sob a árvore da volúpia/para a liturgia das dores que grito) para emprestar uma conclusão que mais que tardia, amanhece em Despertencimento (Já disse que sou o que desconheço. /Tenho fome, tenho sede./É na falta que me reconheço longe de mim,/ lá onde o começo enviesou entre atalhos, desvios e becos./Foi lá nos desvãos da falha que deixei de me pertencer.)
Nada mais inquietante que Despedida (com que encerra a obra): Vou embora, estou atrasado./Levo para o futuro a fisionomia macia dos parafusos/vou apertar meu outro lado. Depois da faca afiada de Palavra escondida não mora na língua./É no coração que ela reside/ardilosa e simulada para o surto das falácias.
E, por último, no Descompássaro:
“O duplo de mim não sou eu lá fora”
Os estóicos distinguiam (e ainda o fazem hoje seus adeptos) duas espécies de coisas: os corpos com suas tensões, qualidades físicas e paixões e os “estados de coisas correspondentes”.
Ambas dependentes de uma força cósmica harmônica que, em absoluto, abrigaria impulsos que determinassem questões morais subjugando a indiferença da ética.
Helenismo em estado bruto. Ainda que o estudo da literatura e filosofia universal (e portanto do ser) - muito atual - se distancie, em aceleração e velocidade constantes, cada vez mais do algoritmo contemporâneo projetado justamente para afastar o demasiado humano das atividades lúdicas e das espécies das coisas.
Mas há resistências a destacar efeito de predicado ou estabelecer a relação deles correspondente, tanto individualizada quanto binária, a partir da pertinência, favorecendo raciocínios verdadeiros mesmo que derivados do abstrato dos afetos.
É o que se apreende já de superfície do espirito livre do poeta e jornalista Gilson Cavalcante e Descompássaro (a sinfonia solitária sobre os abismos). E que, a priori, transporia para as palavras a linguagem do seu próprio estado de coisas, suas tensões e paixões concorrendo com a diferença ou indiferença da ética de sua argamassa.
Com efeito, nas quatro dezenas de poemas (e na outra dezena de obras publicadas) – Gilson vigia (como bem o nota aquele que o lê) literária e gramaticalmente a substantivação e adjetivação de sua matéria prima (emprego usual em obras rasas) preterindo-as à observação poética substantiva e concreta.
Onde de adjetivado emergem constituintes tão somente, assim, as figuras de linguagem de suas paixões, tensões e estado de coisas correspondentes. Muito presente em Rascunhos definitivos: Deixe-me medir as distâncias/pelo conteúdo elástico dos silêncios/e o barulho das ausências e suas esferas.
Ou no Vai-e-vem da roda ciranda: Amar sempre o instante,/mesmo que estando ausente/a roda da vida é gigante/gira na rotação do tempo presente. Um poema que para não deixar restar dúvidas arremata: O duplo de mim/não sou eu lá fora./Dentro dos olhos do outro/ele me vigia, fingindo-se morto
Nosso maior poeta substantivo ou adjetivado se foi dormindo. Sem despedidas deve agora estar vigiando o duplo dele que ficou.


