Como a vontade não pode ser chamada causa livre, mas unicamente necessária (Spinoza), na expressão de um modo definido de pensar, O amor não acende velas (canção do corpo ausente) – mais recente obra do poeta/jornalista Gilson Cavalcante ainda no prelo – pode ser observada (por semelhantes e dessemelhantes) como  portentosa contradição e periféricos paradoxos humanos, demasiadamente humanos (na expressão nietzschiana) sob a perspectiva da vontade de poder, apolonismo ou variações dionisíacas que segue (e sempre seguiu) sem amarras.

Vem de longe o cheiro que me embrulha a mortalha./Acho que vim predestinado a morrer de amor.(Do Aroma) – poema que abre a coletânea – dá pistas de circunstâncias e da extrema facilidade com que Gilson ergue suas paredes, livremente mas com aguçado senso de concisão e do julgamento que seleciona seus espasmos intuitivos, lapidando-os a melodias poéticas como Beethoven (ou Ravel como bebe na canção do corpo ausente: Belo é o bolero das borboletas de Ravel/sobre os girassóis do cerrado./Sou mais leve e breve se alado) retirava pérolas de seus esboços.

Do primeiro livro 69 poesias dos lençóis e da carne (com o companheiro Helverton Valnir) – há 38 anos – lançamento que presenciei (em Goiânia) à canção do corpo ausente Gilson aprimorou as relações entre seu Eros e sua Afrodite (na leveza de sua semântica perfurante) e, intui-se, pela gravidade com que o tempo vai nos empurrando a filtrar cada vez mais a vida, mais essência que substância e seus acidentes. Talvez mais próximo de Thanatos que Dionísio.

Um degrau além de A Mofina-flor de Morfeu (premiado na Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos). Ou de Lâmpadas ao Abismo, Re/Inventário da Paisagem, Poemas da Margem Esquerda do Rio de Dentro, O Bordado da Urtiga ou de Anima Animus- O decote de Vênus.

É nítido o sentimento da morte, por conexão necessária da razão, funcionando como próprio antídoto à sua certeza de que temos, por reflexão, consciência e, não raro, produto de nossas próprias inflexões cotidianas, bem apropriadas na poesia e vida de Gilson Cavalcante.

Tão expressa em Entre a vida e a morte a lâmina afiada do corte Teatro I (Eu sou sua vida, vivo pra morrer nos outros/Sem mim não haveria a reencarnação). Ou no Poema do isolamento (Amo o que me falta e me ausenta/Sou o outro que me sustenta.). Poder-se-ia intuir que Gilson faz em O amor não acende velas uma espécie de prelúdio e epílogo de uma trajetória (Sou filho do meio ambiente/do meio das pernas e aberto pro mundo ou As minhas noites têm sido em claro./Aliás, parte delas, porque é a madrugada que me abraça e me acorda para sussurrar palavras em chamas.)

Não nega pecados, antes os confessa (Três terços me fazem inteiro nas premissas que julgo possíveis/Para ser santo preciso pecar minhas urgências sob a árvore da volúpia/para a liturgia das dores que grito) para emprestar uma conclusão que mais que tardia, amanhece em Despertencimento (Já disse que sou o que desconheço. /Tenho fome, tenho sede./É na falta que me reconheço longe de mim,/ lá onde o começo enviesou entre atalhos, desvios e becos./Foi lá nos desvãos da falha que deixei de me pertencer.)

Nada mais inquietante que Despedida (com que encerra a obra): Vou embora, estou atrasado./Levo para o futuro a fisionomia macia dos parafusos/vou apertar meu outro lado. Depois da faca afiada de Palavra escondida não mora na língua./É no coração que ela reside/ardilosa e simulada para o surto das falácias.

É essa literatura tão densa quanto fluída que Gilson busca trazer a público enfrentando tanto as dificuldades editoriais quanto a obtusa política cultural de um Estado que nasceu da plenitude e pulsação de sua própria cultura. E que dia-a-dia mais se o nega.

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