Sábado, 24 de Out de 2026

Vereza, o marxismo cultural que Regina Duarte diz combaterá e a boçalidade de Zé de Abreu

luizarmandocosta 02/02/2020 648 visualizações

O ator Carlos Vereza saiu-se ontem em defesa da colega Regina Duarte na Secretaria Nacional de Cultura. Especula-se que poderá ocupar um cargo no órgão. Vereza deu declarações de amigo e de futuro subordinado na estrutura burocrática da Cultura. Reconheça-se sua lealdade e confiança. Amigo é para essas coisas e a atuação de Regina é uma incógnita. Não se pode combater o que ainda não foi colocado.

Participei de uma entrevista (junto com o jornalista Adalberto de Queiroz, um então marxista-leninista) com outro ator global, Stênio Garcia, no início dos anos 80. Stênio fora a Goiânia acompanhar o espetáculo de dança de sua esposa, uma bailarina extraordinária, no Teatro Goiânia. Entrevistamos a esposa e, de quebra, aproveitamos o humor (e inteligência) do ator para esquentar a pauta.

No ABC paulista, um barbudo (tido como pingunço e papador de viuvinhas novas no sindicato de que era diretor previdenciário) começava a mobilizar operários para criação de um partido só de trabalhadores. Uma idéia, então, revolucionária. Afinal, um partido só de trabalhadores se conseguisse se viabilizar, poderia mudar o rumo das coisas no país e essa percepção era vista no eixo Rio/São Paulo como possível de realizar-se.

Stênio (amigo de Vereza) havia saído de uma atuação elogiada na mini-série Aleijadinho (Rede Globo) e preparava-se para fazer o papel de um ditador em um filme nacional. Uma entrevista descontraída ali no mezanino do esqueleto do edifício Parthenon Center (Goiânia), no quadrilátero das ruas 4,7,8 e Avenida Anhanguera, próximo do que era o velho mercado popular central da cidade.

Um prédio que, até então inacabado por anos, abrigava, no primeiro pavimento tosco sem paredes e colunas sem reboco, um restaurante de tradições goianas, galerias de arte e barzinhos com música popular brasileira. Um arranjo do governo goiano e da prefeitura da cidade para ocupar aquele elefante branco que depois viria a ser a sede da Câmara Municipal goianiense.

Vereza saira de uma grande atuação no filme Memórias de Cárcere, da obra de Graciliano Ramos. Estabelecido o paralelo com o amigo, Stênio dizia-se apenas um ator e que representaria o que lhe fosse dado porque vivia de sua arte e haveria também arte na intepretação de déspotas. Ao contrário do amigo Vereza (comparava) que não aceitava papéis que não fossem engajados numa luta revolucionária ou que fossem a representação de viés autoritário e antidemocrático.

E Vereza cultivava este perfil agrupando-se aos artistas e escritores que se opunham à ditadura militar e fazendo declarações enérgicas contra o regime. Um marxista-leninista engajado e nos corredores do portento capitalista da Rede Globo, então atrelada ao grupo norte-americano Time-Life, símbolo do imperialismo americano que Vereza, como os marxistas-leninistas, enxergava colonizar o país.

Vereza, hoje um senhor de idade, posta-se ao lado de Regina Duarte que chega ao governo de Bolsonaro prometendo combater o marxismo cultural. De outro modo: é possível concluir que Vereza, dado o seu passado de luta marxista, tenha feito um revisionismo de seu materialismo histórico e da defesa da luta pelas liberdades tão bem retratadas em Memórias de Cárcere que interpretou divinamente bem.

E deva atuar no governo Bolsonaro, ao qual agora se alinha, como um Sancho Pancha auxiliando Regina Duarte no papel de um Don Quixote de La Mancha a combater moinhos de vento. Afinal, que marxismo cultural existiria no setor artístico de hoje onde as pessoas ocupam suas cabeças com caneta azul, azul caneta é uma pergunta de difícil enfrentamento.

Ou mesmo em Leandro Carnal, Paulo Coelho, Juju Todinho, Anita, Barão da Pisadinha e a infinidade de duplas sertanejas e suas letras "marxistas" sobre acasalamento do proletariado e seus sonhos de carros de luxo nas garagens.

Uma verdadeira disposição de luta entre opressor e oprimido que Regina e agora o seu governo pretende combater para felicidade geral da nação. E depois dizem que o boçal ator José de Abreu, defensor das roubalheiras do governo petista, de cunho marxista-leninista, cunhado por José Dirceu, é um....boçal.

De outro modo: somos agora obrigados não a discutir o que pensava ou pensa Carlos Vereza mas a confrontá-lo com o pensamento do Zé de Abreu, marxista-leninista que dispara sua luta em favor do proletariado direto dos bares da Zona Sul carioca depois de uns gorós ou de uma "pegada" ou uns "tapas".

Ou seja, Regina Duarte e Vereza terminam por não só justificar mas referendar, como verdade alternativa e seriedade de princípios, a boçalidade de  Zé de Abreu. Na exata proporção em que os espectros ideológicos de Bolsonaro e Lula pragmaticamente se aproximam quando esperam que os observemos nas divergências que carregam justa e tão somente naquilo que circunstancialmente não os une.

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