Sexta-feira, 23 de Out de 2026

União não deu aval ao governo nos empréstimos em que a Caixa vai cobrar juros de mercado. Mas Palácio decide atrelar assinatura à agenda política de Bolsonaro

luizarmandocosta 07/11/2019 556 visualizações

A decisão do governo de atrelar a assinatura dos dois empréstimos de R$ 583 milhões com a Caixa à agenda do presidente Jair Bolsonaro é escandalosamente menos técnica que política. E, como tal, sujeita a variantes que talvez o governo não tenha domínio sobre suas consequências ainda que o tivesse das causas.

Primeiro uma obviedade: como o evento já estava marcado, a priori, para amanhã (Bolsonaro tem agenda como presidente desde janeiro) e os prefeitos sendo convidados, Mauro Carlesse teria sido convencido a alterá-lo, é possível deduzir,  por elementos de convencimento (e convicção) a posteriori e de natureza externa, dado que internamente já houvesse decidido.

E aí a segunda parte: a lógica aponta para o senador Eduardo Gomes (líder do governo Bolsonaro no Congresso) - com estreita margem de dúvida, ainda que as existam - a origem da mudança para possibilitar ao Chefe (e a ele próprio) oportunidade de surfar numa onda positiva em contraste com o caos político que Bolsonaro tem criado dia após dia na política e economia do país. E que, evidentemente, gera refração mais que atrai. Eduardo, assim, estaria ajudando Bolsonaro a capitalizar (e captar) coisas boas. Jogo jogado.

O mesmo Bolsonaro que despachou a Palmas na semana passada o Ministro da Educação e cujo filho, Eduardo Bolsonaro (o do AI-5 e que queria ser Embaixador do Brasil nos EUA), teria sido hóspede da senadora Kátia Abreu, sua adversária em 2018, em sua chácara por todo um final de semana por ocasião do Jogos Solidários, promovido pelo senador Irajá Abreu na Capital.

Do ponto de vista operacional, a União (agora governada por Bolsonaro) negou reiteradamente aval a tais empréstimos, obrigando o governo a atrelar como garantia os recursos constitucionais do FPE, reduzindo disponibilidade de receitas correntes e tendo que buscar a Justiça para fazê-lo.

A operação será contratada com taxas de mercado, o que exclui bondades do governo federal e aponta para custo elevado num Estado onde 55% situam-se na faixa de pobreza e extrema pobreza e cuja dívida pública já é de 11% do PIB. População que, se não vai assinar o contrato, pagará, necessariamente, a conta.

E para finalizar, a União tem negado aos parlamentares do Estado nos últimos dez anos empenhar emendas destinadas à ponte sobre o rio Tocantins, em Porto Nacional (um dos empréstimos a serem assinados). Ou seja, não há bondade da União na "coisa" que pudesse conceder ativo político a Bolsonaro que não originasse de bajulação política gratuíta e, pelos fatos, injustificada, ainda que o presidente da República mereça respeito pelo cargo conquistado nas urnas. Foi eleito democraticamente e ninguém seria estúpido para torcer por sua derrota ou que seu governo não dê certo. É presidente da Repúblico eleito conforme as regras de representação. Pode-se não gostar do seu jeito, mas deve ser respeitado.

Pelo enfoque das consequências regionais, Carlesse, no caso específico e ainda que circunstancialmente, entrega o Estado a Bolsonaro (com avaliação de governo em queda/ ruim e péssimo 34%/última pesquisa Ibope e que foi derrotado em 111 das 139 cidades do Tocantins em 2018) e abre a Eduardo Gomes outra janela de oportunidades para reiterar que, como líder de Bolsonaro, tem feito a diferença na viabilização de recursos e obras para o Estado que os demais políticos e parlamentares (Carlesse incluso) não teriam conseguido.

Um viés demonstrado pelo parlamentar, dias atrás, quando, voluntária ou involuntariamente, deixou correr frouxo em portais de notícias tributários que, este ano, já teria sido um dos que mais recursos encaminhou a Tocantins, quando o orçamento em execução pela União foi elaborado (e aprovado) na gestão passada quando o Senador estava sem mandado há quatro anos.

Uma estratégia que, é possível inferir, tenha lhe rendido passivos e desconforto com a bancada congressista estadual certamente não domada com a posterior ação dos portais que lhe são tributários, de apagar a informação repassada como seu ativo. Por que  aí, no popular, os demais parlamentares já a tinham literalmente  "printado" e raciocinado sobre remetentes e destinatários.

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