Sábado, 15 de Ago de 2026

Na curvatura da Cruz

Uma rendição, neste 15 de agosto de 2026, a Nosso Senhor do Bonfim e aos 15 anos em que caminhei a pés os 243 km de Palmas ao Santuário, de 2010 a 2025. Trechos do Capítulo III do livro Na Curvatura da Cruz, de minha autoria, ainda não publicado mas no prelo
15/08/2026 139 visualizações

"Por cinco dias sigo nesta estrada. Já foram dez entremeados noite e dia. Na escuridão noturna ou no clarão diurno não mais me espantam os sinais da cruz que orientam curvas, ladeiras e pontes. Sinalizam dores e impelem a piedades inominadas mas conexas com nosso movimento de caminhar.

A cruz que imagino levar em busca de Senhor do Bonfim se encarrega de mostrar-me pesos e medidas, justapondo-me e ao meu fardo à representação daquelas demarcações.

Umas de madeira tosca outras melhor trabalhadas em ferro. Os sinais aparentes demonstram algumas esquecidas, outras com lembranças frescas de cuidado. Umas, pessoas mortas, outras ainda vivas por lembradas.

Minha cruz, assim, assemelha-se à cruz de André. Preferiria, como ele, carregar uma cruz em forma de X para diferenciar-me do peso da cruz vertical da morte. Uma dor incomparável que faz das chagas dos meus pés problemas banais.

Diante de tantas cruzes, com tanto mais chagas implícitas e explícitas, cuidar-me como se carregasse o mesmo fardo, seria, por certo, uma desonra ao martírio de tantos à beira daquele caminho e às próprias chagas expostas no Nosso Senhor do Bonfim crucificado que eu buscava encontrar.

Cada cruz da estrada da Romaria de Nosso Senhor do Bonfim remete nosso pensamento ao seu corpo pregado na cruz estendido no Santuário.

Isto nos leva a compreender cada cruz de beira de estrada e aceitá-la como condição humana. Traz-nos e ao nosso pensamento uma proximidade maior com o ininteligível, sem a negação da vida nem da morte.

De Palmas a Bonfim são dezenas de cruzes, dezenas de mortes ou ressurreição. Pode-se imaginar razões a partir dos lugares em que estão fincadas. Noutras não se consegue entender que não por desígnios sua ocorrência por desvinculadas de qualquer razão lógica de traçado e movimento.

Estão à esquerda e à direita. Durante a noite quando cruzo com uma delas ocorre o pensamento sobre suas presenças humanas ainda frescas na beira da estrada a vigiar-nos e, talvez já resignadas, aceitas em sua dimensão, quisessem guiar-nos até o amanhecer do dia.

Há cruzes fincadas de amigos conhecidos. Rapazes e moças que elas representam e que por força do destino estão ali na beira da estrada.

Delas, pelo menos três dizem respeito a pessoas que me eram próximas. Quando as alcanço, antes de ultrapassá-las não há como não fazer uma reflexão e voltar o pensamento a suas almas e à sua família.

Outras estão ali juntas, famílias inteiras desconhecidas fincadas em cruzes, lado a lado, impondo a sensação de que também estariam unidas onde estivessem, posto crucificadas na mesma hora, dia e lugar. Cruzes emolduradas por flores de plástico e fitas de papel de cor. Amareladas como as lembranças que simbolizam.

Há cruzes guardadas em santuários, catacumbas erguidas à beira da estrada protegendo espíritos, preservando lembranças. Demarcam com monumentos um ponto como se eternizassem o equilíbrio entre vertical e transversal das duas retas que se cruzam no lugar exato de convergência da dor e da cruz.

E essa dor pudesse ser sublimada com a perenização da lembrança encarcerada naquelas capelas improvisadas e diminutas sob sol e chuva na tangente da curva da estrada.(...)"

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