Sábado, 24 de Out de 2026

Wanderlei vai contra seus eleitores que disseram não a Bolsonaro: participa de ato amanhã em defesa de mais quatro anos do cafajestismo bolsonarista. E se as "menininhas" de 14 anos do "pintou o clima" do tiozão fossem nossas filhas?

23/10/2022 723 visualizações

O governador Wanderlei Barbosa decidiu atravessar a rua e pisar na casca de banana do outro lado. Faz divulgar que irá a evento Pro-Bolsonaro programado para amanhã na Praça dos Girassóis. Poderia apenas orientar seus aliados a fazê-lo, mas decidiu ele próprio subir no palanque. Fico a imaginar sua defesa de Bolsonaro que nada fez pelo Estado em quatro anos.

Deve realçar as transferências constitucionais que não dependem de Jair ou qualquer outro presidente. É obrigação legal cujo não repasse é crime de responsabilidade.  Nem os empréstimos nos bancos públicos se conseguiu no governo Bolsonaro. O governo teve que ir a bancos privados para fazer a ponte de Porto Nacional. As duplicações também não sairam, nem a federalização de rodovias.

Como o PL de Jair (e o próprio) descascaram o candidato Wanderlei na campanha eleitoral, o meia volta volver do Governador sinalizaria, por lógico, que o PL de Jair estivesse certo nas críticas ao seu governo. E não estava, como comprova a execução orçamentária. Se o bolsonarismo não o enfraqueceu do ponto de vista eleitoral e administrativo, conseguiu, agora, mesmo derrotado nas urnas, fragilizá-lo do ponto de vista ético e moral.

E ainda estaria entregando ao bolsonarismo o ativo que o bolsonarismo não teve nas urnas. De outro modo, Wanderlei ganhou a eleição e o prêmio é sua decisão por anular-se. Uma inequivoca demonstração de auto-destruição política.

Como o convite não faz referência a organizadores (o senador Eduardo Gomes é o presidente regional do PL de Bolsonaro), deduz-se que a potência por trás seria o próprio Governo. A uma semana do segundo turno quando o evento se torna meramente simbólico.

Wanderlei, assim, teria caído na armadilha de Dorinha Seabra e Carlos Gaguim, eleitos como ele, contra a força do PL e de Jair Bolsonaro nas eleições.  No caso do Senado, o candidato do PL de Jair Bolsonaro era Carlos Amastha e deputado federal escolhido era Tiago Dimas, filho de Ronaldo Dimas.

Metaforicamente, ao decidir-se por seu algoz no primeiro turno (Jair Bolsonaro), Wanderlei, agora livre pela maioria dos votos a despeito do Jair,  sugeriria ser paciente e portador da Sindrome de Estocolmo, quando o sequestrado apaixona-se por seu sequestrador e o arrebatamento do cárcere uma história de amor incompreendido e, portanto, imponderável.

Prazer na dor posto que, exitoso nas urnas, Jair Bolsonaro manteria seus  líderes no Estado que viu derrotados por Wanderlei. Lógica ponderável já que Bolsonaro preferiria (como qualquer outro) confiar em aliados antigos e do próprio partido do que apostar em quem não conhece e de outro partido. E aí, o governador transformaria vitória em derrota.

Em matéria de estômago e fisiologismo, não se pode dizer que seriam, Gaguim e Dorinha, inexperientes no assunto.

Dorinha deixou Ronaldo Dimas e Eduardo Gomes no início da campanha depois de mais de ano na estrutura do grupo.

E Gaguim tentou derrubar Dorinha do Democratas (depois União Brasil) para entronar o então governador Mauro Carlesse na presidência regional do partido.

Era do batalhão de choque do ex-governador que abandonou tão logo Carlesse foi afastado do cargo. Foi reeleito porque, intui-se, “perdoado” da conjuração pela senadora eleita.

Esse aí o contexto político. No território eleitoral, Wanderlei Barbosa derrotou Jair Bolsonaro no Estado por 58,16% dos votos válidos contra 22,15% dos votos do candidato bolsonarista do PL, Ronaldo Dimas (295 mil votos de frente). Ou seja, apesar da campanha contra de Jair, Wanderlei saiu das urnas com  481 mi votos contra 186 mil de Ronaldo Dimas.

Adicionando a isto os 50,40% de Lula contra os 44% de Jair Bolsonaro no Estado, claro está que o eleitor tocantinense prefere um candidato à esquerda de Jair Bolsonaro. Ou seja, decidiu votar contra o candidato do PL.

Mais: no Estado (conforme a última pesquisa Vetor Fieto) há 57% de eleitores católicos e apenas 33% de evangélicos. Há 6% de ateus e 2% de outras religiões.

Como as circunstâncias induzem, há nas eleições deste ano um componente religioso e a igreja Católica já se posicionou contrário à produção bolsonarista.

No popular: Wanderlei tem todo o direito de contrariar a maioria da população do Estado, ainda que ela o tenha escolhido justamente para fazer o contrário.

O problema reside é na forma: escolher para o ato pró-Bolsonaro a praça do centro do poder, pode não ter sido uma boa escolha: tanto moral, ética como eleitoral.

Mas em épocas de bolsonarismo quem liga para moral. Pode até um tiozão dizer que pintou um clima com menininhas de 14 anos e tudo está normal.

É provável que tolerância igual não se daria se uma das menininhas fosse filha de qualquer outra pessoa. Até mesmo bolsonarista.

É um país em que um ex-deputado presidiário hoje ponta de lança bolsonarista (condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva no mensalão) chama uma ministra do Supremo de prostituta e o candidato e seu rebanho gritam “vivas” nas redes sociais. Com a bênção dos pastores evangélicos, jogadores de futebol e cantores sertanejos milionários pendurados em sonegações também milionárias na Receita Federal.

É a régua da moral e da ordem nacionais. Como bem disse o pastor J.B Carvalho em convenção nacional evangèlica (uma concentração bolsonarista) neste final de semana: "Minha esperança é Jesus voltar no dia 30!". No que foi secundado, no mesmo evento, pela profetiza Ezenete Rodrigues (outra líder nacional evangélica): não é sobre um homem nem sobre um partido,quem vai governar é a igreja".

Confirmada profecia, os 1,6 milhão de tocantinenses teriam que, de agora em diante, para reivindicar algum benefício, negar seus princípios religiosos em favor da igreja evangélica e, ao invés de pedir ao Governador, teria que fazer genuflexão aos pastores Eli Borges, Filipe Martins e Amarildo Martins. Num Estado laico, conforme a Constituição da República.

Essa é a moral que Wanderlei abraça publicamente amanhã de corpo (com sugestão de que tenha consequências em sua alma) no comício bolsonarista em frente ao Palácio Araguaia, que é de todos. Um território comum a todos e símbolo do poder central.

Governos, ademais, não são de partido ou de uma religião nas Repúblicas democráticas como a do Brasil.

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