Enquanto o governador Wanderlei Barbosa (anunciado no Republicanos) conversava ontem no final de tarde com a prefeita Cinthia Ribeiro (PSDB), tentando reduzir - política, administrativa, partidária e regionalmente - o percurso físico de menos de 500m entre o Palácio e a Prefeitura, as circunstâncias políticas nacionais (e locais) acentuavam a enorme distância política entre um e outro.
Uma estrada necessária de ser percorrida que aumenta na proporção inversa em que se reduz o prazo para fazê-lo (23h59 desta sexta), sugerindo movimento pendular incapaz de dar concretude a uma aliança eleitoral entre o Chefe do Executivo estadual (candidato à reeleição) e a prefeita do maior colégio eleitoral do Estado, até ontem sem dar demonstração de que disputará cargo eletivo em 2022 que a levasse a renunciar também nesta sexta.
Estrategicamente, a tática de Wanderlei aos 45’ do segundo tempo tenciona agregar ativo político em dobro num mesmo movimento: atrair Cínthia (e seu ativo) para seu grupo e retirá-la, na mesma medida, do outro grupo bolsonarista que divide os votos da direita no Estado (Eduardo Gomes, Ronaldo Dimas e Dorinha Seabra). Agregar ativo e reduzir ativo do concorrente. Daria certo tivesse esse xadrez apenas peões, sem bispos, cavalos, damas e reis.
Não se tem, nesta manhã, o resultado da conversa. Mas são conhecidos os fatores desta soma. Alguns de sinal negativo. Wanderlei tentou influenciar não só nas eleições municipais de 2020 (com Eli Borges/Joseph Madeira) – à revelia de Mauro Carlesse – vencidas por Cínthia, mas foi fator decisivo na eleição de Janad Valcari na presidência do Legislativo municipal que foi eleita, elegendo seu projeto de crescer atacando a prefeita.
Nem que para tanto o hoje governador convencesse, a custo considerável, o irmão mais velho, vereador Marilon Barbosa, a abrir mão do direito constitucional (seria reeleito com folga presidente da Câmara) em favor da advogada e empresária do ramo de ensino.
Janad que era, até então, uma ilustre desconhecida na política estadual e que se constituiu, pelos resultados alcançados comparados à meta subjetivamente especulada, num retumbante fracasso de estratégia, favorecendo, contrariamente, musculatura a Cínthia.
E, como se vê em 2022, elemento não facilitador, antes dificultador de uma aliança entre Wanderlei e Cínthia que interessaria, circunstanciamente, mais ao governador do que à prefeita.
E que se note: ainda sem as amarras de uma Federação que o PSDB possa integrar este ano que podem retirá-la tanto do palanque de Wanderlei como de Ronaldo Dimas, dada a oposição do PSDB a Jair Bolsonaro.
Ambas ações desastradas para ele próprio que já em 2020 percorria o Estado construindo uma candidatura que o acaso apenas antecipou com o afastamento involuntário (e renúncia voluntária) de Mauro Carlesse. Eleger adversários com dois anos de antecedência não é a melhor tática política.
Se Cínthia teria dúvidas acerca da participação do vice, André Gomes (irmão do senador Eduardo Gomes) na movimentação de Janad no ano passado pelo impeachment da prefeita (algo que ficou circunscrito apenas à crispação política), ainda assim, o escore seria 2 a 1 em desfavor de Wanderlei: dois movimentos do governador contra a prefeita e apenas um atribuído supostamente ao grupo de Gomes.
Com um diferencial relevante: Gomes mantém interlocução política (e institucional) quase ininterrupta com a prefeita e Wanderlei só agora politicamente a procura. Optou no ano passado por enviar interlocutores para pedir apoio a Cinthia (na interinidade do governo) e ultimamente aceitou como estafeta de luxo a senadora Kátia Abreu para entabular alianças na chapa majoritária que, a priori, já está praticamente definida. Política, como é óbvio, é sustentada por símbolos.
Cinthia não acentua adversidades com Wanderlei ou com seu governo. Mas como se infere não tem o perfil de João Doria, presidente do PSDB, demonstrado pelo ex-governador paulista (e até agora candidato a presidente) na administração do poder público e das movimentações partidárias.
Tem muito tempo (e paciência) pela frente até a próxima eleição da qual poderá participar. Se optar pela não renúncia hoje. Pode não subir em palanque majoritário, mas que formará uma chapa proporcional, isso o fará.


