Duas notas negativas e reveladoras de ontem: a ausência, como prega a imprensa nacional, do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) no ato Democracia Inabalável no STF e no Congresso.
E a assinatura do senador Eduardo Gomes (PL) no manifesto contra o ato Democracia Inabalável.
São dois possíveis integrantes de uma eventual chapa majoritária em 2026 para as duas vagas de senador na disputa daqui a três anos. Eduardo tem, ainda, outra possibilidade não disponível a Wanderlei: o cargo de governador.
Entendo, por mero exercício argumentativo lógico e político, que a maioria dos eleitores (51,36%) que votou em Lula no Estado o tivesse feito em resistência ao anti-projeto de democracia de Jair Bolsonaro (48,64%). O Mito da turma. Um processo eleitoral bi-polarizado. Tal o que se avizinha em 2024.
Do ponto de vista institucional, os eleitos representam a todos, indiferente do voto a favor ou contra. Passada a eleição, não representam mais só seus partidos ou ideologias. Especialmente nos cargos majoritários, tem o macro como referencial. E não o micro das eleições proporcionais.
Nas democracias, quem tem mais voto é o vencedor.Caberia ao derrotado respeitá-lo e ao processo para demonstrar respeito a algo maior: a soberania do voto de cada cidadão. O que estaria em jogo não são partidos ou eleições. Mas a possibilidade ou impossibilidade de suas existências.
O 8 de janeiro mostrou justamente o contrário depois de quase quatro décadas de regime democrático no país sob estas regras civilizatórias que sucederam três décadas de ditadura e tirania no Brasil. Um vandalismo medieval como ferramenta de desestabilização para um golpe militar.
Os bolsonaristas não fizeram questão de disfarçar seu planejamento e execução. As etapas foram publicitadas na medida em que se avançava na estratégia no quadriênio.Tão público como sem resistência de um Congresso cooptado por verbas liberadas a rodo sem transparência.
Wanderlei, no entanto, foi um dos onze (de 27 governadores do país) que preferiram ficar em casa e Eduardo na lista de 30 signatários (de 81 senadores) que foram contra o ato histórico.
A assessoria do Governador divulgou ontem às 17h (após o Democracia Inabalável) que Wanderlei estaria em casa em repouso sob recomendação médica. Indiretamente estaria justificando a ausência
Não se duvida do estado de saúde, mas gripe não altera agenda de político e, no caso, o governo sequer a justificou (a gripe) como causa da não presença em Brasília. Ainda mais de um político com o perfil conhecido de Wanderlei Barbosa.
No que terminou realçando uma estratégia pela metade e, óbvio, a importância que o Governo do Estado (e o político governador) daria ao ato Democracia Inabalável ao ignorar-lhe e sua relevância para a democracia no país. Poderia ter dito: não fui por recomendação médica, mas defendo a democracia. Ou mandasse um representante.
Ambos teriam suas inclinações políticas. Mas que em absoluto se harmonizariam com busca de democracia (e o expõem com a negação de ontem) que Jair Bolsonaro (do qual parecem ainda defender após a barbárie do 8 de janeiro) tentou solapar por quatro anos.
Bolsonaro hoje inelegível e com risco de ser preso por suas próprias ações. E não da sua oposição.
Seria irrazoável pensar diferente tomados intenções e gestos de ambos. Ainda mais com as justificativas diversionistas que se tem conhecimento.
Apresenta-se, afinal, risível, em condições de bom senso, razoabilidade e boa fé, comparar a reação da Justiça a uma manifestação contra uma privatização no governo de São Paulo com as punições a um ato nacional elaborado em quatro anos para a derrubada da democracia e ascensão de uma ditadura militar.
Ou a rídicula argumentação de que a intentona de 8 de janeiro de 2023 fosse uma armação do PT e de Lula. Ou seja, o presidente eleito, num processo eleitoral polarizado, com uma semana de governo, tramando um golpe contra seu próprio governo.
Dando um cavalo de pau e negando, em menos de dez dias, o projeto que colocou para opor-se justamente à intervenção militar no país que provocaria, indubitavelmente, uma ruptura institucional.
E, considerado comunista pelos militares, Lula teria obtido o apoio do Exército (que ocupou cerca de 3 mil cargos em 70 órgãos no governo Bolsonaro) para este auto-golpe. Uma subestimação do cérebro do brasileiro comum.
Com efeito, o ato de ontem não era uma celebração apenas da oposição. Mas do país. Reuniu a Suprema Corte, o Congresso e o Palácio do Planalto. Negá-lo seria, sem dúvida, não aceitar sua essência: um ponto marcado para que não se o esqueça com vista a não repetir-se.
Um ato pró-democracia. A mesma que possibilita a eleição dos deputados, senadores e governadores.
Isto levaria sua negação, à negação da própria democracia e, por conseguinte, da legitimidade dos mandatos eletivos.
É neste enquadro que se acomodam Wanderlei Barbosa e Eduardo Gomes. Repetem no ano eleitoral municipal o modus operandi político do governo Jair Bolsonaro.
E que se note: enquanto Eduardo mantém-se no mesmo lugar, Wanderlei retrocede ao ponto de onde parecia ter saído. Uma voz (interior ou exterior) teria falado mais alto.
Não haveria, com efeito, explicações que não eleitorais para o Governador participar daquele ato dia seguinte ao 8 de janeiro (em 2023) com o presidente Lula, STF e Congresso, e negá-lo ontem. Ou seja: uma visão relativa da democracia que relativiza as próprias democracia e ditadura.
Passando uma borracha, do ponto de vista político, naquelas cenas dantescas criminosas do 8 de janeiro e que já resultou em 30 condenações do Supremo Tribunal Federal.
Sugerem que fosse mais adequado o particular entendimento do bolsonarismo sobre justiça e democracia.
Bolsonarismo que subiu a rampa proclamando que bastaria um soldado e um cabo para fechar a Suprema Corte do país, garantidor da Constituição da República.
E que negligenciou, sob vários escândalos de desvios de recursos públicos, uma pandemia que deixou mais de 700 mil mortos enquanto se embolsava relógios e jóias de milhões de reais presenteadas ao governo brasileiro e abria a torneira de bilhões dos cofres públicos para parlamentares fazerem o que quiserem sem prestar contas nas emendas de relator.
Deve ser esta a democracia que os contrários à Democracia Inabalável teriam como referencial.


