Muitos políticos da chamada velha guarda tem enxergado em Wanderlei Barbosa no governo (ainda que na interinidade) simbolismo relevante: seria o primeiro nortense (nativo) a administrar o Estado em mais três décadas de sua existência como unidade federativa autônoma. Naturalidade, por óbvio, não é garantia de êxito. Assim como a falta dela também não o é, como se dá no Estado governado por não naturais.Teve Raimundo Boi de Miracema mas que não governou de fato.
Sofredor, como os nortenses (antes e depois de criação do Estado) seria Wanderlei, na tese, caudatário, depositário e repositário de expectativas e esperanças não realizadas nos 33 anos de orçamentos estaduais administrados por alienígenas ou imigrantes que, não raro, enriqueceram-se enquanto, inversamente, a pobreza grassava na outra ponta, quase numa relação de causa e feito entre um e outro.
Neste sentido, Wanderlei Barbosa seria o extrato da política portuense, considerada berço histórico da criação do Tocantins, a despeito da narrativa alternativa de Teotônio Segurado e Siqueira Campos.
Aliás, o protagonismo concedido a Joaquim Teotônio Segurado não encontra sustentação na própria história do desembargador/ouvidor. Servidor de Portugal, era contra a República, claro, e a favor da Monarquia. Ou seja, favorável à manutenção da colônia, contrariando a tese de que quisesse a libertação do Norte de Goiás, enquanto mandava as riquezas da região para além-Tejo. As minas de Natividade, Paranã e Monte do Carmo estão aí para comprovar.
Pragmaticamente, sua escolha para mártir da libertação/criação do Tocantins favoreceu, por outro lado, a negação de Fabricio Cesar Freire, João Quinaud Matos, Feliciano Machado Braga, Osvaldo Aires, Francisco Aires, Ananias Pinto, Catão Maranhão, Trajano Coelho Neto, João Querido, Elvecino Barros e tantos outros que levaram adiante a luta separatista. Narrativa paralela não enfrentada, sem justificativas, pela maioria do políticos e historiadores. Pelo contrário, a incentivaram (e ainda a incentivam) perpetuando a mentira.
Mas não é o ponto: o menosprezo de Siqueira Campos a Fenelon Barbosa, pai de Wanderlei Barbosa (então prefeito de Taquaruçu que aceitou entregar a área para Palmas) diz respeito, também, a essa narrativa implantada pelo siqueirismo para apropriar-se da história e da política regional onde o ex-governador só entra na segunda metade da década de 60.
Fenelon foi eleito prefeito de Taquaruçu (após a emancipação comandada pelo então deputado Totó Cavalcante) numa composição feita entre o prefeito Euvaldo Tomaz (PMDB/PSD) e a mãe de Wanderlei, Maria Rosa, originária de família tradicional (era filha de João Comprido, grande criador de gado ai na Almiska, próximo de Pontal e um líder da cidade). Na aliança, Maria Rosa ganhou duas vezes: o apoio do PMDB a Fenelon e o cargo de vice de Euvaldo, entregue a seu irmão, Antônio Comprido qeu chegou a assumir o cargo de prefeito.
Conseguiu, ainda, o apoio de Gabriel Almeida e Elvecino Barros, lideranças incontestes da região (Elvecino criou um campo de pouso em Buritirana). O PSD/PMDB já tinha, com João Querido, viabilizado a estrada na serra que dá acesso a Taquaruçu, possibilitando conexão com Novo Acordo. Na primeira e única eleição de Taquaruçu, Euvaldo e Maria Rosa costuraram um acordo com Mário Benício (um dos primeiros vereadores e candidato natural prefeito).
Quando Siqueira entrou (após ser barrado na sua intenção de levar a Capital para Araguaína e, de birra, escolher Miracema contra Porto Nacional que tinha sido preparada por Henrique Santillo para receber a capital) este processo político já existia há muito. O que explica o desprezo que o grupo siqueirista concedeu a Fenelon, Maria Rosa, Wanderlei e seu irmão mais velho, vereador Marilon Barbosa. Processo do qual o governador Mauro Carlesse é herdeiro presuntivo.
O PMDB/PSD sempre foi antípoda do siquerismo. No Estado, após a criação, o PMDB tinha o Movimento de Salvação do Tocantins (MST) e o siqueirimos a União do Tocantins (UT). UDN versus PSD. Ou seja, Siqueira queria unir para se salvar (todos unidos em torno dele) e o PMDB salvar o Estado dessa união que Siqueira tentou fazer com a história. As denominações não necessitam raciocínios mais apurados para que sejam entendidas e compreendidas na sua natureza, intenção e extensão.
Tudo isto aí é história, no contraponto da estória criada depois de 1.988 com seus consequentes desdobramentos. Daí que a tese que empolga os políticos negados por Siqueira não seria implausível: Wanderlei seria não só um extrato da política nortense, mas também estrato da história política do Estado.
É ver como se movimentará no governo tendo a história no retrovisor.


