Os ventos de junho que para muitos anunciam o verão, praias, beira de rio, levam-me à romaria. O calendário aponta a contagem regressiva. Dois meses me separam de mais uma caminhada ao Santuário de Nosso Senhor do Bonfim.
A quarta-feira da semana, que tomo como ponto de partida todos os anos, recaiu em 2019 no dia 7 de agosto. A mesma data do meu primeiro passo dessa romaria que faço a Nosso Senhor do Bonfim, dado lá em 7 de agosto de 2010. É como se fechasse, nestes dez anos de caminhada, o paradoxo de um ciclo que não início nem fim.
Sigo planejando cada passo, estabelecendo relação causal de tempo e espaço para organizar paradas e recomeço. Enfrento o conflito se a ciência ou a fé curou Lis. Mas não de hora e lugar, ainda que se considerasse o imponderável não considerado.
Unta-me, nessa argamassa, a dúvida e dela aproprio-me do cimento para seguir na crença de que ambos como a reta e a curva, tem mesmo ponto de partida e chegada até onde alcançaria nossa compreensão tão superficial quanto frágil. O lugar geométrico da condição humana.
Nos 2,2 milhões de passos dados nos nove anos (de Palmas ao Santuário) muitas certezas e incertezas. Mas uma constatação: depois da primeira romaria, ano a ano é como se uma força me impulsionasse a não parar, seguir todos os anos na romaria.
Uma força que não consigo controlar, a despeito de conselhos de amigos e familiares quanto ao esforço físico e a idade. A romaria de Nosso Senhor do Bonfim termina tomando conta do meu pensamento doze meses ao ano. Fico seis meses falando da romaria que fiz e outros seis meses, da próxima que farei.
Este ano segue comigo o velho companheiro Manoel, parceiro de outras cinco romarias juntos, quando outros parceiros revezavam-se. Manoel tem receio de que um dia eu deixe de fazer a romaria. E eu também dele. Mas no fundo sabemos que, como ele, Bonfim nos chama todo início de janeiro para um encontro que nos alimenta e fortalece.
Sigo por aquilo que se denomina, comumente, de um milagre. Algo que não pode ser explicado por causas naturais. E (como escrevia Spinoza) se tudo que acontece por causas naturais acontece unicamente também pela potência e vontade de Deus, um milagre, tenha ou não causas naturais, seria uma obra que excederia à compreensão humana.
Sigamos, portanto, a velar as cruzes das curvas dessa estrada.


