Sábado, 24 de Out de 2026

Uma história de diamantes suplantando estórias alienígenas e circunstanciais: de Eli Brasiliense, Adauto Cordeiro, Porto e Gurupi

14/11/2022 497 visualizações

Tive conhecimento das origens de Gurupi pelo escritor Adauto Cordeiro Cavalcante. Como outras cidades do Estado, Gurupi faz aniversário nesta segunda de sua emancipação autorizada pela Assembléia Legislativa de Goiás.  Adauto era um romancista, historiador e cordelista que optou morar em Porto Nacional no início da década de 60, interior do país, contrariado com o não êxito do comunismo no Brasil e empurrado pelo golpe militar de 64.

Um intelectual magnífico que tirava sustento da venda de livros de cordel nas feiras de Porto. Diferente de outros intelectuais menos substanciosos quanto mais afoitos e afeitos aos holofotes, Adauto escolhia o isolamento. Bem ao estilo de outro regionalista portuense, Eli Brasiliense.  O Eli de Rio Turuna, Chão Vermelho, Pium, Um grão de mostarda, A morte do homem eterno e Uma sombra no fundo do rio.

Muitos dos escritores alienígenas se apropriaram da cultura regional para dizer-se tocantinenses, após a criação do Estado, apontando o dedo para historiadores, como Adauto, que desde sempre no Norte de Goiás estiveram, cometendo seus romances, memórias e críticas.  Dentre os estudos, a história de Gurupi.

 Adauto era meu conselheiro para assuntos “intelectuais” e incentivador. E Eli (que entrevistei no outono de sua vida em Goiânia no início da década de 90) era o tropeiro que falava francês e que pululava na minha cabeça desde criança quando passava ali pela praça da Igreja Nossa Senhora das Mercês, em Porto Nacional, onde morara.

Depois, a cidade só o relembrava nos discursos públicos do irmão, Edson Doido, que se ocupava diariamente a andar pelas ruas da cidade, sob sol ou chuva, a vociferar suas críticas aos coronéis e às mazelas portuenses. Edson Doido, observada a racionalidade de sua retórica, seria mais lúcido que a maioria.

O empenho e vigor que Adauto defendia em Gurupi, eu não tinha. Pelo contrário: como a maioria dos portuenses, via a cidade com ressalvas. Talvez enciumado com o desenvolvimento proporcionado à cidade pela Belém-Brasília e que atraiu muitos portuenses.

Dentre eles, o oftalmologista doutor Gilberto, um comuna portuense e com o qual realizei meu primeiro exame de vistas em Gurupi no final da década de 60. Gastava-se cinco horas de Porto Nacional a Gurupi nos ônibus da Viação Araguarina (depois Transbrasiliana).

E aí meu primeiro paradoxo: via Porto como mais desenvolvido que Gurupi mas era obrigado a fazer lá meu exame de vistas. Como foi em Paraíso que conheci o primeiro liquidificador que fazia sucos de laranja, depois de percorrer os quase 100 km de estrada de terra (hoje asfaltado) entre uma cidade e outra.

No fundo, Porto, até por questão logística, havia ficado para trás (de Paraíso, Gurupi e Nova Fátima) com seu conhecimento contra a natureza prática (e moderna) dos conglomerados que margeavam a Belém-Brasilia a partir do início dos anos 60. Mais próximos que eram da civilização.

Na verdade, Porto estava mais próximo de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, São Luiz ou Belém em função dos voos diários da FAB, Varig e Vasp - que traziam diariamente jornais e revistas nacionais - do que de comezinhos problemas como, por exemplo, um oftalmologista ou um peg-pag que só veio a conhecer na década de 60.

Ou carne em açougues em datas programadas, dada a falta de geladeiras ou freezers. Era uma época em que se comprava carne no gancho e, com o progresso, passou para embrulho de pão até chegar à sacola de plástico. Casa com alpendre, só depois da revolução arquitetônica e apenas para endinheirados.

E hoje, apesar da contrariedade dos pseudo-escritores regionalistas, muito embora alienígenas, que criticaram deficiência científica na pesquisa de Adauto Cavalcante, Gurupi é, a cada dia, mais um diamante puro. E segue, como Porto Nacional, o seu destino.

Compartilhar

Deixe seu comentário

Mais em Ponto Cartesiano