Proliferam como moscas as notas de pesar no Estado pelo falecimento do ex-governador de Goiás, Iris Rezende, ocorrido hoje. Até parece um método: na morte da sertaneja Marilia Mendonça políticos (e gestores públicos) do Estado não se importaram em pegar carona nas redes sociais com notas semelhantes.
É, ao que parece, uma confusão deliberada entre compaixão/comoção pessoal e a relação pública institucional com finalidades explicitamente individuais e não subordinadas ao interesse coletivo. Com uma grande pitada de hipocrisia.
Iris Rezende foi um ferrenho opositor à criação do Estado do Tocantins. Constituíssem as notas tão somente produto de reconhecimento público, ter-se-ia aí, por inferência dedutiva, a população do Estado reconhecendo que Iris estivesse certo na sua oposição à criação da unidade federativa.
Ou seja, o Tocantins fosse um equívoco. Mesmo que se pudesse inferir que sua oposição fosse manifestação democrática de pensamento, não seria motivo do poder público lamentar a falta daquilo que o impedia de existir. Tipo Nelson Rodriques: me perdoas por me traíres.
Dependesse dele, com efeito, o Norte seria até hoje uma colônia do Sul. Você imagina um governador, secretário ou deputado decidindo em Goiânia sobre uma escola pública em Araguatins, a 1.377 km de distância. Ou os 1.430 km da capital goiana até São Sebastião do Tocantins!!! Ou um prefeito tendo que se deslocar dois dias para despachar com secretários de Estado!!!!
Íris, o maior coronel da política de Goiás (superou na intenção e gesto os Caiados e Ludovicos), misturou a disputa por protagonismo que tinha com o médico (e democrata ao extremo) Henrique Santillo com a necessidade da população do Norte, hoje Tocantins.
Depois de criado o Estado, despachou seus tributários para a região, um deles inclusive tornou-se governador. Embalados pela poesia do “vem, vamos embora, que esperar não é saber...”, de Vandré, explicitamente contraditória à ação do coronel emedebista que fazia a hora a seu modo. Só com ele, acontecia. A criação do Estado, certo modo, ensinou-lhe que não é bem assim. Até na política, é preciso saber "apalpar a égua", como ensinava o amigo e jornalista Salomão Wenceslaw, emedebista de raiz e também amigo pessoal de Iris.
Entre o seu projeto político como ministro de José Sarney e as disputas internas com MDB goiano, teria despachado o Estado do Tocantins para as cucuias, não fosse o próprio antagonismo com Santillo. Este sim que conseguiu dos deputados goianos a unanimidade pela criação do Tocantins, como exigia a Constituinte.
E que se note: isto aí não tem nada a ver com comoção pessoal. Ninguém celebra a morte de ninguém. Cada morte, traz tristeza. De pessoas que se conhece, mais ainda. Do ìris, ainda tenho na memória suas visitas na madrugada na redação da Folha de Goiaz, quando eu iniciava minha carreira no jornalismo pela revisão do jornal nas madrugadas que deixava somente após as rotativas pararem de rodar o diário nas oficinas, lá pelas 5h às vezes 6 da matina.
Iris retornava do exílio político, no final dos anos 70 início de 80, pedindo apoios em mangas de camisa, para a disputa ao governo que teria, indo das máquinas à redação, passando por composição e revisão. Aparentava democrata, mas com poder sempre foi um autoritário.
Derrotou, à época, o ex-governador Otávio Lage, com o apoio de Mauro Borges (que elegeu-se senador). Depois detonou o filho de Pedro Ludovico Teixeira. Da mesma forma como o fez com o ex-governador Ary Valadão.
Ambos ex-governadores de Goiás,.Mauro Borges (que implantou um projeto revolucionário em Arraias/Combinado) e Ary Valadão (responsável pela implantação do então maior projeto de irrigação de arroz do planeta, ali em Formoso do Araguaia) não tiveram, no Estado, a mesma genuflexão política.
Até Irapuan Costa Junior (governador biônico de Goiás nomeado pela ditadura) tem mais obras que o Iris democrata no Estado (a ponte sobre o rio Tocantins em Porto Nacional). Busque aí uma obra de relevo do emedebista no Estado!!


