Não fora a pandemia, nesta quarta-feira me encontraria caminhando no trecho entre Porto Nacional e Silvanópolis em direção ao Santuário de Nosso Senhor do Bonfim que alcançaria no próximo sábado. Um trecho de 60km ladeira arriba (o pior trecho da romaria) que hoje venço em 15 horas.
Anualmente, cumpro o projeto de adentrar Bonfim um dia antes do encerramento da maior festa religiosa do Estado, no 15 de agosto. Percurso de 243 km e que hoje faço em quatro dias e meio tendo Palmas como ponto de partida e que percorri desde 2010 até que a prudência me fizesse, no ano passado, pedir paciência à providência divina. Programo-me para retomar a trilha no próximo ano.
Muitos fazem o mesmo que eu: quando vão pela primeira vez não mais deixam a romaria. Fica-se seis meses falando da romaria que se fez e outros seis projetando a romaria que se fará novamente. Como se reeditássemos o círculo da cura.
A primeira romaria, descobriria, é um mundo disforme, de fundo negro e solitário. Misturam-se medos, anseios, dores e desgaste físico. Aprendi a fazer uso reflexivo do propósito para demonstrar a mim mesmo que não só era possível, mas inexoravelmente necessário cumpri-lo.
A negação cerebral das dores não se contava como as três vezes em que Pedro negara-se a si mesmo (e a Jesus) e a plasmar-se ao sofrimento do nazareno, lapidado na mesma matéria prima de que era preenchido.
Como o conforto do aproveitamento da dor que enxergava nas beatas carpideiras da sexta-feira da paixão, embaladas paradoxalmente na libertação que o sofrimento proporcionaria. Nisto me fiava e, quando o corpo instava a ficar quieto, prosseguia.
Carregasse na caminhada em agosto de 2010 – a primeira caminhada - uma imagem do Nosso Senhor do Bonfim talvez pudesse apropriar-me, ainda que indevidamente, de tal sentimento e enxergasse nas chagas dos meus pés um pouco daquele rosto espezinhado de sangue pisado.
Imagem que veria pela primeira vez depois de andar duas centenas de quilômetros, arrastando-me por uma semana, no Santuário plantado no meio do cerrado e a poucos metros de um caudaloso curso dágua, denominado de Manoel Alves, onde milhares de fiéis devotos celebram o lado profano de sua fé.
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