A campanha eleitoral em Porto Nacional produz um debate paralelo à busca de votos. Reprimido pela direção partidária na cidade, o ex-deputado Paulo Mourão, do PT, não deve ter sido de forma adequada e certamente incompreendido quando expôs que apoiava outro candidato (que não do partido) como cidadão e não como membro da legenda petista. Separou o militante do cidadão.
No mesmo dia, o candidato que ele apóia, o empresário Ronivon Maciel, circulou vídeo nas redes refutando denúncias eleitorais sobre o mais de R$ 1 milhão de dívidas e bens penhorados na cidade argumentando que os problemas seriam de ordem pessoal e não pública. Vangloriando-se de não ter processos de desvios de recursos públicos. Ainda que dívida com a Fazenda Nacional não possa ser considerada recurso privado e estivesse sob escrutínio para cargo público.
Tem-se aí, certamente, dois princípios: a lógica da vida política e da vida privada. Na política, o filiado a um partido que apoiar o de outro, pode até ser aceito porque no meio, mudar de opinião é uma prerrogativa das circunstâncias e conveniências políticas, produto do democrático e de direito.
Evidente que não se sobreporia, na substância partidária, à legenda sua opinião pessoal e não de grupo o que o empurraria a deixar o partido, dado que com ele não concordasse ou não tivesse conseguido fazê-lo (o partido) mudar sua diretiva, onde manda quem consegue ter mais votos a suas idéias. Partido é feito de partidários de uma mesma causa. E, pela democracia, alí vigorariam regras democráticas.
Para o cidadão, isto é evidenciado como falta de princípios, o popular "traíra". Daí muitos políticos preferirem o silêncio pantanoso(e apoios de gabinete) a cometer sincericídios verdadeiros como o do deputado petista e que outros deveriam copiar na disposição para a transparência de condutas.
No caso do empresário, seria apenas mais uma dessas questões privadas que dizem respeito a empreendedores com dificuldades (seja em função do mercado ou da economia) as dívidas do cidadão. Na vida pública, o cidadão que ele busca convencer a apoiá-lo é levado, regra geral, a raciocinar que, se empurrou suas empresas à situação, não comprovaria, a priori, que não fizesse o mesmo nas contas municipais.
É um debate que deveria ser prosseguido. Não por questões eleitorais (como a maioria pode entender), mas para avanço, não só da sociedade política, mas também da sociedade civil. Um retorno às lógicas aristotélicas, kantianas ou maquiavélicas para compreender o momento presente. Uma ambiguidade utilizada para avanço e não retrocesso.
Ainda que o cidadão comum continue a cobrar da vida pública que os políticos exercitem os valores da vida privada onde calote é calote, roubar é roubar, desvio é desvio, lealdade é lealdade. E não princípios da vida pública onde, grosso modo, tudo é uma questão do ponto de observação político na lógica de conquistar ou manter o poder.
Situações muito visíveis hoje em dia quando os políticos (por força destes princípios e dos preconceitos que eles impulsionam na população) são cada vez mais escrutinados com lupa nos mínimos detalhes de sua vida pessoal quando buscam cargos públicos.
No Japão, muitos se matam por vergonha (em outros países democráticos perdem até eleições) quando pegos em situações constrangedoras, por mínimas que sejam, até declarações impróprias no exercício (ou na busca) de cargos de natureza pública.


