Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Um bom debate: a cidade deve buscar no pretérito soluções políticas para problemas presentes consequentes do passado que lhes deu causa?

23/03/2023 579 visualizações

Gosto do debate sobre que cidade se está construindo em Palmas. Isto leva, por consequência, ao confronto racional de ideal, ideado e real. 

Emergindo, daí, as causas da régua anacrônica e reacionária de que se aproveita a sociedade política para medir a sociedade civil.

Como muitos, sou um dos pioneiros, mas recuso-me ao chavão de piotário numa cidade em que operários, quando das primeiras ruas, foram denominados de "oreia-seca", perfurando valas sol a pino para ganhar uns trocados. Todos alojados nos Aurenys, Vila União, Golfo Pérsico ou na Sapolândia. Fora hoje, a denominação não resistiria ao escrutínio de linguagem preconceituosa.

A jornalista Roberta Tum, com sua caneta como sempre cirúrgica, pontuou hoje sobre a sucessão municipal de 2024 e nela estabeleceria determinada correspondência entre as atuais circunstâncias políticas e o início da cidade. Com implicações e projetos e políticos, eventuais pré-candidatos a prefeito.

Da análise, sobressai-se, daí, sob a razão e correta vinculação política de fatos e trajetória, a possibilidade concreta de o ex-deputado Eduardo Siqueira, pelo ativo político, influenciar ou até mesmo participar mais diretamente das eleições. O ponto de influxo seria a administração de Eduardo e o fator-Siqueira Campos.

Convém não deixar de lado a questão eleitoral, a dupla renúncia, a candidatura a deputado estadual, a saída de cena, mesmo depois de dois mandatos de deputado federal, um de senador, outro de estadual e ter governado com o pai por quatro mandatos de governador.

Como a Tum, acompanhei a disputa de Eduardo Siqueira com Eudoro Pedroza em 92 (Eduardo derrotou o MDB com 66%/ 19,9 mil votos). O governador, de fato, era do MDB (Moisés Avelino) mas não demonstrava qualquer vontade.

Não foi governador porque ganhou, mas porque Siqueira o quis, ao não fazer esforço por Moisés Abrão. Tanto que Moisés entregou o governo novamente a Siqueira, sequer subindo no palanque do candidato do seu partido ao governo, João Cruz, a maior liderança popular emedebista que o Estado já teve. Hoje Moisés é procurado por políticos de todas as correntes. Inclusive os siqueiristas.

Acompanhei dee igual modo a inconstitucional medida do então governador Siqueira Campos para retirar o FPM da administração do primeiro prefeito, Fenelon Barbosa (pai do governador Wanderlei Barbosa). Uma ilegalidade gritante. FPM é uma transferência constitucional como o Estado tem o FPE. Siqueira travestiu a inconstitucionalidade em um convênio que os deputados, lá como cá, aprovaram sem pestanejar.

José Eduardo (como o chamavam os modebas) - que se projeta na discussão da sucessão - teve, assim, tudo para hoje herdar a musculatura política, determinação e ativos do pai, ex-governador Siqueira. Está sem mandato mas, democrática e partidariamente (é do União Brasil), tem direito e quer, tudo indica, influenciar na sucessão. Só que o partido tem outros candidatos. No seu partido, a deputada Vanda Monteiro é um deles e o partido é comandato pela senadora Dorinha Seabra. Senadora que ainda não abriu publicamente a sucessão no partido. Entenderam?

Ademais, na prefeitura (ainda que o Executivo tenha feito obras relevantes, tudo era necessário), também acompanhei sua administração tocada, em larga medida, pela vice Mariza Sales e secretários muito competentes. Mas passou grande parte dos quatro anos se deslocando justificando problemas de saúde. Estados Unidos e Inglaterra eram destinos frequentes. Vez ou outra, se tinha notícias dele em cruzeiros em mar aberto. Nada,entretanto, confirmado por fotografias ou outros registros que não orais.

Já Siqueira Campos (se não é o responsável sozinho pela criação do Estado) é o trator da construção da Capital. Ainda que forçado pelos militares (que descartaram Araguaína como ele queria) a implantou no local onde, muitas décadas antes da criação, já se havia feito estudos para sua localização. Uma historia que a narrativa siqueirista não só nega, mas reescreve.

A implantou com distorções conhecidas. Especialmente aquela com a população de baixa ou nenhuma renda, que fora agregada, como guetos, no início da cidade na periferia (e ali perpetuada), em favor de grandes empresários cujas áreas no Plano Diretor, jazem, decorridos 34 anos, desocupadas aguardando valorização.

Resultado: dentre as capitais do país, Palmas tem hoje uma densidade demográfica de apenas 102,90 habitantes por km2. Um grande vazio, se considerarmos que a maior densidade populacional está em Fortaleza (CE) com 7.786 hab/km2.

Uma cidade de 313 mil habitantes, um PIB per capita de R$ 32 mil/anuais (2020) – a 12ª entre a Capitais -  e um índice de pobreza de 31,97% contra, por exemplo, 16,17% de Goiânia (GO). Para se ter uma idéia, o Estado do Tocantins registra um índice de pobreza de 7,2% (IBGE/2021).

São números de uma geração que deu certo apenas para uma minoria. E não é no pretérito que vai se mudar essa realidade. E sim com novas políticas e novos políticos. Lideranças que devem priorizar o futuro e não o passado que, como se nota, não pode mais ser copiado.

Palmas, tudo indica, é o que é hoje pelo esforço e trabalho da população e de pequenos empresários de modo geral. Ainda que rentistas formem a maioria do bolo da economia. Se dependesse apenas de vontades políticas, entretanto, teria o perfil correspondente a seus indicadores sociais, elaborados por uma geração de mais de três décadas de mesma aceleração e velocidade.

Palmas necessita do novo e não do velho que não deu certo. Está aí um bom debate a ser feito no que empresta à eventual vontade política de Eduardo Siqueira na medida em que, ele próprio, assume o papel de um dos referenciais e fatores da equação.

Compartilhar

Deixe seu comentário

Mais em Ponto Cartesiano