O Tribunal de Contas do Estado faz uma nova homenagem a Siqueira Campos: desta vez uma exposição com o acervo histórico do ex-governador e do Estado. É sempre difícil falar sobre homenagens porque atinge egos e vaidades, afinal todos se acham merecedores de algo. E quando não se o recebe ou se é escrutinado, vê-se como injustiçado.
Aliás, o TCE já homenageou Siqueira Campos até com o Colar do Mérito Estadual Governador Siqueira Campos!!! Considerada pelo órgão a maior honraria conferida pela Instituição a uma pessoa. Seria Siqueira sendo homenageado por ele mesmo. Isto poucos meses depois da dupla renúncia.
Informa-se sobre o novo projeto: "A exposição inicia antes da luta de Siqueira Campos pela criação do Tocantins. Começa no século 18 e termina em 5 de outubro de 1988".
Siqueira merece todas as homenagens do mundo. Mas o TCE não pode, com recursos públicos(ou privados), firmar uma narrativa equivocada sobre a história do Estado, confundindo-a com a história do ex-governador. Falta algo nesse enredo e nas finalidades nele inseridas seja de forma direta, transversal ou subliminar. Até no contexto mundial, onde o TCE, com a exposição, informa inserir Siqueira.
Deve, sim, homenagear Siqueira que teve papel relevante na criação e implantação do Estado e em que ele, Siqueira, não foi o protagonista. Assumiu o protagonismo nos minutos finais na Câmara, ainda que se possa dar relevância às comissões que ajudou a criar para fazer a redivisão territorial do país.
Mas ao colocar o ex-governador como o responsável pela criação do Estado, comete uma verdade alternativa. E vinda de um Tribunal, uma verdade absoluta, de um reducionismo até vigarista do ponto de vista histórico. O TCE passa recebido da narrativa que Siqueira quis impor ao Estado e no conseguiu por motivos óbvios.
Como é notório, a criação do Estado vem de antes de Siqueira. O ex-governador pegou o bonde andando. Senão, seriam abstrações, por exemplo, as reuniões no Norte capitaneadas por Moisés Avelino, Manoel Cortez ou Euvaldo Tomaz de Souza. Ou a luta de Feliciano Machado Braga, Osvaldo Aires, Francisco Aires, Ananias Pinto, Joao Quinaud e tantos. E que não são merecedores do mesmo cuidado do TCE com suas biografias.
Siqueira, deputado federal, só passava pelo Estado em períodos eleitorais. É fato, qualquer um morador do Estado antes de sua criação sabe disso. No intervalo, tentava manter eleitores analfabetos e desinformados com encaminhamento anual de cartões de natal ou de aniversários. Não passou pelo legislativo estadual. Saiu de Colinas para Brasília e Rio de Janeiro.
Ademais, o Estado só entrou na Constituinte porque os 41 deputados estaduais de Goiás aprovaram por unanimidade o desmembramento do Estado. Uma ação do ex-governador Henrique Santillo e do ex-presidente do Legislativo goiano, Brito Miranda. A condição determinada pelo Congresso (para não dividir Minas Gerais) era essa e que também foi imposta ao Tocantins e à divisão do Pará, Piauí e Maranhão. Só os goianos aprovaram com a unanimidade exigida.
E depois de um abaixo assinado com mais de 72 mil assinaturas coletadas pelo comitê de criação do Estado, presidido pelo então juiz federal Darci Martins Coelho que junto com outro líder regional, o ex-senador João Ribeiro, Totó Cavalcante e outros percorreram a região norte num aviãozinho cedido pelo empresário e deputado federal Jaime Câmara. Ou do engenheiro Zeza Maia que abrigava os idealistas em Brasília financiando suas ações no Congresso.
Siqueira assinou a emenda. As assinaturas do abaixo assinado, conforme discursou Ulysses Guimarâes quando as recebeu, representavam que não era um projeto político pessoal de um deputado e sim da população. Está lá nos anais da Câmara dos Deputados.
Mas o TCE do Tocantins não poderia deixar de ser o TCE do Tocantins. Não que Siqueira não o mereça. Aliás, a população já o agradeceu concedendo-lhe cinco mandatos de deputado federal e quatro de governador. O TCE quer mais: que Siqueira seja o dono da história do Estado.


