O surto psicótico de que teria sido acometido o número 02 de Wanderlei Barbosa (no dia em que seria nomeado Secretário da Governadoria), empresário Joseph Madeira, mereceria maior atenção.
Empresa alguma (inclusive a sua própria) contrata empregado antes de realizar exames admissionais. Na administração pública, então, é uma obrigação que não é cobrada de cargos ad nutum. Mas deveria, ainda mais em cargo de tamanha relevância responsável por um Estado de 1, 6 milhão de pessoas e orçamento de R$ 11 bilhões.
Mais não fosse, a assessoria do empresário/secretário cuidou de fomentar uma teoria da conspiração pela qual o empresário/secretário teria ficado desaparecido por quase 24 horas (entre a noite segunda e a tarde de terça) e desconfiava-se de que tivesse sido dopado. E que teria saído de casa a esmo sem o aparelho.
Uma temeridade de teoria efeito bumerangue já que teria saido de casa sem telefone e a esmo (portanto inconsciente), estaria ali, por dedução lógica, a priori, indicativos de sujeito, objeto, tempo e lugar.
Ora, quem conhece Madeira sabe que seria uma narrativa implausível dada a sua expertise.e sagacidade. É uma pessoa de hábitos e gestos estudados, cuidadosamente planejados, ainda que demonstre, a primeira vista, uma espécie de humilde, inocente, puro e besta.
E disto faz uso muito bem. Ainda que os secretários de Carlesse que tivessem estado com ele no final de semana (a mando de Wanderlei) tenham saido da conversa impressionados com a aflorada prepotência administrativa e política do ainda apenas indicado secretário, sem cargo de representaçao e que desconheciam até então, mesmo que fizessem parte, antes, do mesmo grupo político.
Não é pessoa, portanto, de cair num boa noite cinderela justamente na noite da posse, quando deveria estar comemorando com os seus. Aliás foi até mesmo repórter de cobertura policial durante anos onde teve conhecimento dos macetes dos 171 para poder prevenir-se.
Mas o fato, por óbvio, mediante representação, poderia acionar a PF onde, conforme lhe atribui o Portal CT, a assessoria informou ter encontrado o empresário. Afinal, não é todo dia que um secretário importante de governo tem, na noite em que sua posse é publicada no Díário Oficial, um surto psicótico (fosse dopado ou não) e encontraria paz justamente e de forma inconsciente no banco da Polícia Federal.
No lado Norte da cidade e a pouco mais de 2 km de sua cobertura (sua propriedade) no lado Sul, de frente para a residência (seu escritório) adquirida do ex-deputado ( e ex-vice governador) Eduardo Machado.O escritório portanto é quase uma extensão de sua cobertura. Não seria problema de ninguém questões particulares de cada um que faz o que achar melhor e o Brasil é um país livre. Não fora o empresário agora um gestor público e, conforme o governador interino, o homem forte do seu governo.
Deve ser, intuo, o primeiro caso do gênero na Capital. Nunca vi um maluco daqueles internados no HGP ter um surto psicotico e ser encontrado dormindo num banco da Polícia Federal. Até porque a PF não é bagunçada assim como banco de praça pública.
Como na manhã da mesma terça (quando ele, pela narrativa, já estaria desaparecido, lembram-se, tinha saído de casa a esmo e sem celular na noite anterior) a assessoria distribuía à imprensa um histórico generoso do Secretário, tem-se mais um condimento.
Especialmente considerado o seu estilo centralizador, seu porte atlético e seus modos, atraindo compaixão pela narrativa “vencedora” de manhã (um pobre trabalhador, bom pai e filho, que subiu na vida pelo proprio esforço para contrabalançar sua escolha para o governo e o patrimonio pessoal) e pelo evento de saúde, com suspeitas (levantadas pela mesma assessoria) de vítima de um crime à tarde.Quando já pipocavam nas redes e portais a menção de seu nome na investigação que levou ao afastamento de Mauro Carlesse (seu até então aliado) e dois secretários.
Um duplo combate mas uma mesma batalha de comunicação do qual não é certamente um alienado ou alienígena. Sem juizo de valor do que de fato aconteceu e sim por mera conjectura dos fatos colocados pela assessoria. Pode ser verdade e torço para que um médico consiga traçar um diagnóstico e prescreva o prognostico e a terapia adequados.
Combinados, entretanto, os dois pontos de observação (e exposição) representariam, em tese, por gravidade dedutiva,contrariedades às suas decisões que deram início antes mesmo de tomar posse no cargo, com o chamamento extra-oficial, ilegal e ilegítimo de secretários em seu escritório particular no final de semana para tratativas que deveriam ser feitas por funcionário empossado no cargo e em ambiente público. A mando do governador interino.
O fato, entretanto, desvia, também, a atenção das leviandades do processo de afastamento de Mauro Carlesse, ao mesmo tempo em que expõe ainda que involuntariamente, uma espécie de régua do imperativo moral do governo interino. Como publicado pelo Portal AF (com fac-simile de trecho do inquérito), Joseph Madeira seria citado na investigação como “frequentemente participante dos esquemas criminosos do atual governo” (de Mauro Carlesse) que levou ao afastamento do Chefe do Executivo.
Simples, assim, sem qualquer demonstração fática da suposta conduta, mas o suficiente para arrastar sua empresa (política e criminalmente) para dentro do processo (e do escândalo). Talvez o teor tenha sido objeto das conversas que Wanderlei teve com o ministro do STJ e abalizado a escolha de Madeira, inversamente ao afastamento de Carlesse pelas mesmas investigações e circunstâncias. Mas ao assunto não foi dada igual relevância quanto os vazamentos seletvos em desfavor de Mauro Carlesse.
Uma delas: a tese da contemporaneidade levantada por Mauro Campbel. A tese é relevante porque serve à decisão do afastamento, na medida em que comprovaria uma conduta em curso que justificaria a segurança contra obstrução de Justiça.
O problema são os fatos: ela é fundamentada, dentre outras coisas (como vazado ontem) numa venda de uma fazenda em Mateiros no dia 21 e julho de 2021. Um veterinário vende em 2021 uma fazenda para uma empresa do qual Mauro Carlesse deixou de ser sócio em 2019. Há três anos.
A prova da contemporaneidade dos desvios seria o fato de o governo decidir este ano (três anos depois) asfaltar o aeroporto do Jalapão. E que por lógica mais indutiva que dedutiva a fazenda teria como sócio ainda Mauro Carlesse para supostamente lavar dinheiro do Plan-Saúde
Para safar-se da narrativa (fundamental no afastamento) os vazamentos seletivos ressaltam que a decisão do Ministro não vincula diretamente, entretanto, o dinheiro supostamente desviado do Plan-Saúde para compra da fazenda em Mateiros. Apenas indica que pode haver várias fontes ilegais de recursos. Então tá.
Nada como a memória: seguindo a tese de contemporaneidade, Marcelo Miranda foi preso preventivamente em setembro de 2019, pela Justiça Federal, por cerca de cinco meses, por obstrução de justiça, de processos que tramitavam desde 2016. Na tese do MPF, portanto, a Justiça teria demorado quatro anos para barrar a tal obstrução.
A PF encontrou nos tais desvios indícios de até assassinato que teria sido praticado pela “quadrilha” de Marcelo, nos supostos desvios de R$ 300 milhões, omitindo que o crime do qual se referia teria sido praticado por um policial militar, pelos motivos confessados, que já teria inclusive, sido condenado dois anos antes. O STF mandou o processo voltar à estaca zero, pela incompetência da Justiça Federal.
Repito: esses abusos das investigações (levadas adiante sem a devida explicações e agressões processuais) não justificam desvios de recursos públicos que devem ser investigados e punidos. Do mesmo modo que não podem prejudicar acusados com a pecha de criminosos antes de serem julgados e condenados. Ou seja duas condenaçoes: a primeira antecipadamente no consciente popular impulsionada pelos vazamentos seletivos e a outra pela Justiça, caso confirmadas as condutas criminosas imputadas.
Se não forem confirmadas, problema de quem foi acusado injustamente.


