Caros, este texto é mais longo que os de costume, mas as circunstâncias e os personagens mais que exigem, o cobram.
Nesta segunda, as informações são de que o ex-governador Siqueira Campos estaria se recuperando, voltavam ao normal as funções vitais e, queira Deus, logo logo estará em sua residência como de outras vezes.
Siqueira sempre teve vida saudável, não bebe, não fuma e tem raciocínio tão saudável quanto ativo. Dias atrás estava nas redes pedido votos a Eduardo Siqueira que apontava como seu herdeiro e sucessor político.
Uma reiteração desnecessária (mesmo que tempestiva e Siqueira sabe muito bem de calendário e estratégia política onde a lucidez dos seus 94 anos é ativo insuperável) porque dá a impressão de que já não o fosse e que ele Siqueira não o demonstrasse desde antes da criação do Estado.
Eduardo, não só por isto mas também em larga medida por causa disso, foi deputado estadual, federal, senador e prefeito de Palmas. A um ano e meio das eleições municipais, se coloca como pré-candidato pelo União Brasil, que tem outros postulantes também.
Eduardo, aliás, é, para Siqueira, não só escolha dentre outras variantes, mas única e que levou-lhe problemas até mesmo no ambiente familiar, com outros filhos desejosos de igual projeto e crentes no acaso da sina. No fundo, Siqueira, com a divulgação da semana passada, estaria a reafirmar: não estou morto. Como de fato não está.
Desta forma, a fake-news expandida por siqueiristas ontem dando conta de sua morte quando tinha saúde estável (grave mas recuperando-se) extrapola não só os limites de verdade ou mentira que ganha likes e joinhas nas redes sociais.
Ou o limite periférico extremo entre o humano e desumano, a capacidade de empatia inerente aos racionais e até mesmo a certos animais irracionais que, com efeito, protegem suas crias e prole. E não os desejam, especialmente os racionais, enfrentar o desconhecido inexorável do não ser.
Ainda que a razão, por conexão necessária, tenha incutido no ser humano a certeza terrível da morte (como apontava Schopenhauer), os animais irracionais, por outro lado, desconhecendo sua existência, desfrutam “imediatamente” de toda a imutabilidade da espécie.
É onde, por certo, estaria, à primeira vista, a diferença essencial entre ambos: o fake e o não fake, o racional e o irracional, a empatia e a indiferença, a compreensão e a repugnância. Na hora da morte, certamente a família de Siqueira (ou de qualquer um que tenha um ente querido em tratamento de sáude) quereria que ele fosse eterno aqui. E não no abstracionismo imaterial.
Mesmo que o racional tente desfrutar-se da imutabilidade da espécie, como os irracionais, se ocupam, com efeito, de mudá-la em favor de sua própria sobrevivência ou até extinção voluntária ou involuntariamente. A civilização está aí para comprová-lo.
Logicamente, o fake-news indispõe de pensamento filosófico. E, por mais que se o emoldure, é mais racional do que irracional. E aí outro recorte na desumanidade praticada contra Siqueira Campos e sua família no domingo.
O fake partiu de admiradores de Siqueira que se portaram, ao anunciarem sua morte, em certa medida, como integrantes de um processo que materializaria a sua suposta condição de eterno como já o consideram.
O fake, assim, cumpriria uma função, representando, certo modo, até mesmo um trabalho, uma obrigação dos siqueiristas, que em menor ou maior grau, se acham devedores de favores ao ex-governador pela situação que hoje ocupam com implicações, compreensíveis, no campo dos afetos.
Deixando de lado, considerando de menor gravidade e dimensão, a desumanidade que carregava o ato. Uma semente, como é lógico, cultivada pelo próprio siqueirismo nas últimas três décadas e meia.
Houve até aqueles que embarcaram na notícia falsa e choraram nas redes sociais ter perdido um pai (os cearenses e nordestinos de modo geral como Siqueira tinham um padrinho, Padre Cícero) ignorando suas próprias condições filiais.
Quando do outro lado, do próprio Siqueira e amigos, concentrava-se, com razão, no plano material: a recuperação da saúde do ex-governador onde de choro por morte queria-se distância.
Uma ação que teria consequências não só no campo das humanidades como se nota, mas na história e política, a um ano da campanha eleitoral. Com toda a desumanidade que o fake incorporava.
Apesar de cultivar fakes nas páginas da história do Estado (tentou mudar a história criando sua própria narrativa desgarrada dos fatos que o antecederam) Siqueira é um dos personagens relevantes do Tocantins.
Lutou, de fato, pela criação do Estado e, indiscutivelmente, foi o criador de Palmas e implantou o Estado como um trator. Um mérito indiscutível. Mas em 88 apenas juntou duas emendas (fusão) que já tramitavam (foi o relator), num processo que tinha 80 mil assinaturas dos eleitores pedindo a separação, um comitê de criação e inúmeras entidades e líderes.
E a aprovação de 41 deputados de Goiás e o governador goiano (Henrique Santillo). Condição indispensável para as matérias tramitarem no Congresso.
São fatos que já garantem a Siqueira Campos anotação relevante na história do Estado. Maior, claro, que os governadores que o sucederam à frente do Tocantins. E ao lado de pessoas como Fabrício César Freire, Osvaldo Ayres, Feliciano Machado Braga, Ananias Pinto, Catão Maranhão, João Quinaud, Don Alano du Noday e outros.
Mas essa mesma história precisa de Siqueira com a saúde de touro que sempre teve. Suas ideologias e princípios políticos que, ainda que abriguem valas de contestação, são, por isto mesmo, relevantes, por encerrarem, no seu bojo, elementos que fortalecem, pela liberdade política e de expressão, a democracia brasileira.
Essa a eternidade de Siqueira que seus admiradores e devedores confundem com gratidões pessoais a ponto de levarem adiante, sem pestanejar, a narrativa do fake sobre a saúde do ex-governador, da mesma forma que o fizeram, durante o siqueirismo, para atrair mais apoio ao grupo por compaixão que redundava em apoios políticos.
Erraram de hora e forma: a família de Siqueira e os seus amigos certamente tem outras preocupações agora. E com razão: o Estado ainda necessita da força política de Siqueira e do que ele representa.
Mas vivo. E não na eternidade. Vida longa ao ex-governador que sempre, não sem méritos próprios, será um rei para os que consideram seus súditos.


