O plano nacional de imunização está se transformando em uma piada macabra. Enquanto o Distrito Federal vacinava ontem pessoas com 50 anos sem comorbidade e o Maranhão abria vacinação para sua população com 28 anos, no Tocantins apenas 8,7% haviam tomado as duas doses e 20% tinha sido imunizadas com pelo menos uma vacina.
Partindo-se da pressuposição de que as doses encaminhadas aos Estados fossem proporcionais à sua população, a conta não está de bom tamanho. Como os Estados não podem ainda comprar vacinas (recebe-as do governo federal) há algo no ar e não é avião de carreira.
O Tocantins fechou ontem com 3.029 óbitos. Tem um índice de mortalidade na casa dos 191,3 (o menor da região Norte) e de letalidade de 1,6% (no Brasil é de 2,8%). Poderia ser melhor o desempenho.
Vejamos a conta das vacinas (arredondo os números para melhor entendimento). O Estado recebeu até ontem 681 mil doses. Distribuiu 643 mil aos municípios. O governo informa que foram aplicadas 457 mil doses. Ou seja, há uma diferença aí de 186 mil doses (entre as encaminhadas e aplicadas).
Se você retirar das 457 mil doses aplicadas as 137 mil que receberam duas doses (274 mil doses) tem-se, assim, que 183 mil pessoas receberam apenas uma dose. Precisam, portanto, de outras 183 mil doses já que pelo PNI o poder público tem que deixar no ponto a segunda dose.
Somando as 457 mil doses aplicadas às 183 mil que deveria existir para a segunda dose e considerando que foram distribuídas 643 mil doses, o governo teria distribuído aos municípios mais doses que o necessário dentro deste planejamento.
O problema é que essas 643 mil doses só imunizariam 321 mil pessoas. Ou seja, 20,4% da população com duas doses. O índice que o governo hoje trata como vacinado, apesar de 183 mil pessoas ainda faltarem a 2ª dose, mesmo que elas estivessem já garantidas. Isto em quatro meses de vacinação com uma média mensal de 5,1% de imunização.
Seguindo essa aceleração inercial, a população do Estado só terá sido totalmente imunizada daqui a 16 meses. De outro modo: outubro de 2022, quando São Paulo projeta vacinar todo mundo até setembro e Maranhão já vacina na faixa etária de 28 anos sem comorbidade.
Como no Tocantins a média diária de óbitos tem estado na faixa de 10 ocorrências, poder-se-ia projetar em um ano e quatro meses mais 4.800 óbitos que seriam somados aos atuais 3.029 mortos. Uma cranificina que não consegue modificar o comportamento da sociedade política e civil de forma adequada à dimensão da tragédia.


