Não se pode dizer de prudente a "comemoração" da Secretaria de Saúde (que circulou na noite de ontem) sobre o desempenho do Estado na Covid-19 em 100 dias. Grosso modo seria o Brasil ver como motivo de celebração as 52.771 mortes (da noite de ontem) comparando-as aos 121 mil óbitos registrados nos Estados Unidos. Não seríamos o primeiro na tragédia. E sim o segundo no planeta. Ainda que a população dos EUA seja 57% superior à brasileira (330 milhões contra 209 milhões de habitantes).
É fato que no mês de junho o índice de contaminação desacelerou no Estado. Muito pela redução do número de testes assumida pelo próprio governo e que já seria motivo razoável para frear celebrações dada a consequente elevação das subnotificações. Com desdobramentos no consciente coletivo que passa a enxergar menor gravidade na pandemia quando, de fato, é ancorada em dados inconsistentes.
De 1º a 13 de junho, o Estado registrou uma média 198 casos/dia. Já de 13 a 23 esta média caiu para 183 casos a cada 24 horas. Os óbitos aumentaram 71% (54 entre 1º e 13 de junho) e 37,69% (49/13 a 23 de junho). Ainda que se possa calcular a taxa de mortalidade, a taxa de letalidade fica comprometida em função da redução da testagem, por que diretamente relacionada a número de positivos/óbitos. Facilidade à Saúde e deficiência de informação para o combate eficiente.
Aliás, os números divulgados ontem pela Saúde não são incentivo para que a população sinta-se segura. Se não há cuidado com os números, certamente favoreceria negligência na ação e prejuízo no resultado. Ela informa: "Conforme dados do Ministério da Saúde (MS) e do CIEVS/TO, com 24,4 mortes por 100 mil habitantes, o Tocantins tem a menor taxa de mortalidade dentre os Estados da região Norte que tem 47,8 mortes para a mesma quantidade populacional". A informação é verdadeira, os números que a sustentam não.
São números erráticos que se quer como oficiais. O Estado registrava ontem 179 óbitos que para uma população de 1,572 milhões de habitantes, dá uma taxa de mortalidade de 11,3/100 mil (179:1.572.000 X 100.000). Esta taxa no Brasil ontem era de 25,1/100 mil. Ou seja, os números da Saúde publicados aumentaram a taxa de mortalidade do Estado. Dobraram-nas quando se tencionava mostrá-las reduzidas. Ademais, a média da região Norte (conforme o MS ontem) era de 48,5/100 mil e não 47/8/100 mil. Eram 67,5 (Amazonas), 48,59 (Amapá), 24,8 (Rondônia), 48,6 (Roraima), 39 (Acre) e 56/100 mil (Pará).
De outro modo: pela Saúde, o Estado estaria pior na comemoração. Ainda que em melhor situação dentre os Estados da região Norte. A unidade que tem população mais próxima do Tocantins é Rondônia, com 1,778 milhão de habitantes. Pará tem quatro vezes mais e Amazonas duas vezes e meia. Os demais tem metade da população do Tocantins.
Já quanto a contaminados, o Tocantins registrava ontem uma taxa de incidência de 558 casos/100 mil habitantes. No Brasil essa taxa era de 543/100 mil. A Saúde tenta embrulhar um pacote diferente: informa que o número de recuperados cresce a proporções maiores que os contaminados. Deixando de lado, na conta, que a redução dos testes implica diretamente na retração dos números de contaminados enquanto os curados já fizeram a testagem e a consequência lógica é a saída do sistema, reduzindo a relação.
Não deve ser fácil comemorar 6.336 contaminados e 128 óbitos em um mês (23 de maio/23 de junho). Ou 8.733 casos confirmados e 177 óbitos em 60 dias (23 de abril a 23 de junho. Ainda que circunstâncias possam indicar desaceleração, a situação, com a flexibilização, requereria prudência. Mesmo que o governo tenha tomado, até aqui, em larga medida, as ações necessárias à prevenção e combate da pandemia.


