Havia antecipado desde a semana passada o equívoco tático do Palácio Araguaia com a bancada congressista. Mauro Carlesse agradecera quatro parlamentares, induzindo a população à conclusão de que apenas o quarteto estaria auxiliando o governo. Contrário senso: os demais sete parlamentares operariam contra o Executivo e, portanto, estariam inviabilizando o atendimento à população no que tem de prioridades.
Carlesse tinha fundamentos verdadeiros mas a afirmação (de que não estariam ajudando o Estado) não resultava deles. Não é porque os parlamentares não tivessem colocado emendas para a saúde no Executivo (viabilizando um melhor atendimento na Covid-19 que não fora prevista) na forma que o Executivo gostaria, que eles (os parlamentares) não estariam colocando verbas no Estado. E aí uma indagação: onde estariam depositando suas emendas. São R$ 394 milhões em 2020 (de bancada e individuais).
A senadora Kátia Abreu (que é coordenadora da bancada) fez circular uma nota dura ontem contra a dedução lógica das críticas do governo aos demais parlamentares congressistas que não estão na sua base de apoio político. Kátia sentiu o cheiro de fumaça (e do governo) em informações disseminadas nas redes. A Nota é atribuída à Bancada onde o governo só tem quatro supostos aliados. Minoria, portanto.
O cerne da questão são as emendas para a saúde. A informação era de que os parlamentares de oposição não estariam encaminhando emendas para a saúde, o que contribuiria para o estrangulamento no atendimento, agora, do Covid-19. O que não é verdade!!!
Evidentemente que poderiam os parlamentares encaminhar os recursos da saúde para o governo aplicar nos 18 hospitais regionais como já apontei aqui. Mas ao mandar para os municípios, também estariam contribuindo com o Estado que é formado por pessoas que moram nos ... municípios.
Diz coisas assim a Senadora na nota (leia íntegra aí do lado): que ingressará na Justiça, em nome dos congressistas, contra qualquer caluniador, especialmente do Executivo estadual, que falte com a verdade com fins espúrios e interesses inescrupulosos, repetindo ações que levaram o Estado à condição pré-falimentar e de insegurança social à população pelos desvios de recursos públicos investigados pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal.
Leio no portal do jornalista Cléber Toledo que o governador Mauro Carlesse teria, também em nota, ontem mesmo, reagido à nota da senadora. Minimizando e relativizando a reação de Kátia, creditou o posicionamento a rompantes da parlamentar e à sua suposta incapacidade de articulação (negado pela própria nota da bancada), citando o resultado da última eleição. E que a Senadora estaria sendo desrespeitosa.
Como resta evidente, Carlesse preferiu atacar a pessoa (argumento ad hominem) que refutar a coisa com um argumento ad rem. A tática, como lógico, não refuta a verdade colocada. E por que isto? Ora, porque a tese do governo, apesar dos fundamentos verdadeiros, toma o todo pela parte. Um falso silogismo.
E aí não consegue negar o raciocínio lógico de que ao invés de responder uma Senadora da República (que tem atribuições, prerrogativas, competências e funções constitucionais) parte para a negação meramente político-eleitoral e especialmente no plano pessoal. Apesar de, na nota, a Senadora não citar nomes.
Veja que Carlesse poderia dizer algo assim para reagir à senadora, ainda que a partir de sua observação dos fatos, como forma de contraditar à verdade apontada pela parlamentar: "A Senadora está equivocada, nós não estamos espalhando que os parlamentares não colocam verbas para saúde. Isso é coisa das redes sociais, da imprensa. Até porque as emendas estão publicadas no portal da transparência da Controladoria Geral da União, não há como negá-las".
Ou então: "a Senadora está equivocada na sua conclusão. Nós estamos falando é que se os deputados e senadores destinassem parte de suas emendas para os 18 hospitais públicos do Estado, estaríamos melhor, porque a maioria das pessoas procuram é estes hospitais na falta de hospitais municipais".
Não fez nada disso. Preferiu reagir à Senadora e não aos fatos por ela apontados no que termina dando razão às premissas colocadas pela parlamentar, sob o seu ponto de observação político e que, pelos números do portal das transparências, refutariam, por si só, as colocações que teriam sido feitas pelo Executivo.
Com a reação publicada, Mauro Carlesse sujeita-se, inversamente, ao escrutínio de que a Senadora tenha tocado no lado fraco do seu raciocínio o que, pelos fundamentos da lógica política, seria, na verdade, incentivo a novas investidas assemelhadas por parte da parlamentar ou de outros congressistas oposicionistas que, como oposição que são, não terão comportamento de aliados. Ainda mais na forma empreendida pelo Palácio que termina por admitir, sem perceber, as premissas colocadas pela parlamentar.
Não é a melhor forma de convencer seis deputados federais e dois senadores a mandar recursos para os 18 hospitais públicos. E, como é notório, no governo federal deputados federais e senadores tem mais importância que governadores. Ainda mais quando o Executivo não comanda a maioria dos votos da bancada no Congresso. Ou seja: ao invés de atrair, a nota de Mauro Carlesse os afasta mais ainda.


