De quando em vez, leitores descem o sarrafo no blog. A tese é que estaria a soldo do governo quando apontaria seus acertos. Contrário senso: receberia, pela lógica, compensação de adversários do governo quando indicasse seus equívocos. Como leitor pode perceber, só comento fato pretérito, não busco “furos” e sim dar alguma leitura racional (sob o bom senso e nunca no senso comum) acerca do já acontecido.
Quando anoto, por exemplo, que os grupos políticos que se levantam contra Mauro Carlesse no pós-afastamento (aproveitando-se de fragilidades políticas circunstanciais) estariam sendo hipócritas e apostando na imemória coletiva, seus tributários começarão a sacudir como abóboras na carroça na estrada de chão.
Mas atenção: nunca estive próximo de Mauro Carlesse ou conversei pessoalmente (ou por telefone) com ele. Como escrevo sobre o que já aconteceu, não vejo necessidade de estar próximo. Isto não é por acaso, e sim por princípio. A proximidade torna as avaliações mais afetadas do que um ponto de observação fora da tangente ou à revelia do objeto.
E que me fez, quando ele era presidente da Assembléia, apontar que fazia um governo paralelo (com o apoio dos deputados, inclusive do futuro vice), inviabilizando (como atrapalhou) o governo legítimo de Marcelo Miranda. Apontei até que Carlesse tentava criar um parlamentarismo sertanejo em que ele seria o primeiro ministro e Miranda a rainha da Inglaterra. Tudo aí nos arquivos do blog.
Ou já se esqueceram que Carlesse (então presidente do Legislativo) reduziu de 30% para 5% a possibilidade de remanejamento de orçamento no governo Marcelo, engessando o Palácio? Marcelo vetou e caiu e os deputados até hoje não avaliaram o veto de 2018. Ou seja, Carlesse se aproveitou dos 30% não derrubados e seguiu em frente. Casuísmo comprovado.
Não o avalio e sim o seu governo. Nunca tratei governadores como amigo e sempre os levo como vossa excelência. Diferente de muitos que os bajulam no exercício do poder e os trocam como de roupa no exercício diário de coberturas.
Vamos lá: no governo Moisés Avelino (91/94), o secretário da Fazenda, Marcos Farias e o chefe de gabinete Ivan Coelho mandaram nas finanças do governo. Acompanhei a questão direto da redação, na coordenação de redação do Jornal do Tocantins, cargo que ocupei até tornar-me sub-editor e editor executivo.
Lembram-se das denúncias? E onde estaria Moisés? Na Fazenda Mona. No jornal a agenda política de Moisés de quinta a terça, bastava reproduzir cópia. Sentava praça na Capital de terça a quinta com os cofres públicos a semana inteira nas mãos de Farias e Coelho.
Nos governos de Siqueira teve o escândalo das pontes de papel, do R$ 1,2 bilhões de tungada no Igeprev. Na acusação de R$ 1,4 bilhão das pontes de papel (apesar dos aditivos terem sido assinados por Siqueira) a cobertura da imprensa jogou no colo apenas de Brito Miranda o passivo. Com a condescendência de setores da Justiça.
Na implantação da Capital, Siqueira (e os deputados) apropriaram-se do FPM num convênio fajuto e inconstitucional (o Estado já tinha o FPE), deixando o prefeito Fenelon Barbosa (pai do agora governador Wanderlei Barbosa) com a broxa nas mãos, sem poder administrar a cidade que os vereadores de Taquarussu concordaram em sediar.
Um deles, Pedro, ajudante de pedreiro do meu pai que contruiu em Taqurussu a primeira escola ali na hoje praça Maracaipe. Moramos ali por seis meses no início de 70 para que meu pai erguesse o "grupo". Taquarussu era distrito de Porto e o prefeito de Porto era o médico Antônio Coelho dos Santos. Gastamos um dia de Porto a Taquarussu no caminhão de seu Pedro Maracaípe e na rural de Zé Florentino. Debaixo de chuva. Serra de tabatinga.
Fenelon e os vereadores corriam de jornalistas. Dona Maria Rosa (a primeira dama) - com o sangue do histórico João Comprido nas veias - é que enfrentava com mais praticidade o encargo repentino de conduzir uma Capital, após tomar posse legal e legitimamente (após uma eleição) na prefeitura de Taquarussu. Dormiram administrando com autonomia uma cidade e acordaram como prepostos do Governador na administração da Capital.
Situação que ainda não corrigiu historicamente parte da imprensa que até hoje dissemina que Eduardo Siqueira (filho de Siqueira) teria sido o primeiro prefeito eleito de Palmas. Ou seja, Fenelon teria sido um interventor quando fora Siqueira que interveio nos domínios do município de Taquarussu por ele administrado, eleito legitima e democraticamente.
Siqueira deixava correr frouxo (e parte da imprensa o amplificava sem dó nem piedade ou compromisso com os fatos ou com a história) que Fenelon era um vaqueiro (fez o mesmo com Sebastião Borba, prefeito eleito legitimamente em Miracema, capital provisória) que ele teria laçado, apropriando-se dos votos a ele dados pela comunidade de Taquarussu, Canela, Taquaral, Buritirana, vão do Taquarussu Grande, Mangues, Matança, Graciosa, Almesca e que tais.. Uma vigarice intelectual sem comparação.
Siqueira também apropriou-se de terras que há anos eram de proprietários particulares, fez uso de uma discriminatória (depois derrubada pelo STF) e redistribui a aliados, em forma de chácaras, as terras que apropriou e não pagou.
Alguns só receberam o que de direito após a Justiça. Outra parte das terras entregou a grandes empresários goianos, sem licitação, em forma de dação em pagamento. O Estado já tinha MPE e TCE. Ainda permanecem grandes áreas no centro do plano diretor há mais de 30 anos aguardando valorização. E sem ser utilizada a sua função social. Enquanto Taquaris, Capadócias, Golfos pérsicos avançam sobre a área rural, obrigando o poder público a ações de regularização que oneram, ainda mais, os cofres públicos.
Sandoval (que assumiu o cargo na dupla renúncia de Siqueira e João Oliveira, o vice) foi preso acusado de desvios de R$ 1,2 bilhões em licitações (e desvios de aplicação de recursos do BNDES). E por último Marcelo Miranda foi preso na Reis do Gado por suposto esquema de lavagem de dinheiro com contratos de gaveta de R$ 200 milhões.
Lá como cá, oscilavam nos grupos que se revezavam no Palácio Araguaia, os senadores Kátia Abreu, Eduardo Gomes e Irajá Abreu. Os deputados Carlos Gaguim, Vicentinho Alves, Osires Damaso, Dorinha Seabra, Dulce Miranda. Eduardo Gomes esteve com Siqueira a vida inteira (tem-no inclusive como suplente no Senado).
Aliás, aqui um adendo: Eduardo só disputou e venceu as eleições no Senado por que candidato de Mauro Carlesse. Quem conversa com os grupos políticos e conhece as campanhas por dentro, sabe muito bem disso. Ele, na verdade, havia sido coordenador de campanha de Vicentinho Alves, que foi derrotado pelo grupo palaciano.
Carlesse respeitava Siqueira e estendeu-lhe a mão e Gomes acertou-se com Siqueira que por motivos de saúde, optou por ser suplente. Foi eleito senador com uma das maiores votações no Estado, motivo pelo qual, desde 2019, o aponto neste blog como o candidato com maior potencial político para disputar o governo em 2022.
Tiago Dimas ainda não tinha entrado na política, mas Ronaldo Dimas, o pai, foi secretário de Cidades de Siqueira (no período do Igeprev/2011/2012 e que Siqueira ganhou a eleição/2010 pelas mãos de Kátia Abreu). Ele próprio, Ronaldo Dimas, que já havia sido candidato a vice de Siqueira Campos nas eleições de 2006.
Ora, atirar pedras em Mauro Carlesse pode até fazer do vice, Wanderlei, no exercício do cargo, uma marionete impulsionada por vaidades e sem arcabouço nos fundamentos. Mas não apaga essa história pretérita.
Ainda que agora todos se unam em função do vácuo que pode surgir com o afastamento de Carlesse. O problema é que na política como na física dois corpos não ocupam um mesmo lugar ao mesmo tempo. Candidatos de mais e cargos de menos.
Como é evidente, por outro lado, que não é porque todos estivessem ao lado daqueles que foram acusados de desvios de recursos num Estado onde um milhão de pessoas dependem do bolsa família e do auxílio emergencial, não pudessem concordar com os desmandos.
O problema é que durante o período optaram pelo silêncio comprometedor que agora não guardam no afastamento do Governador.


