A entrevista de uma pneumologista (concedida ao T1 Notícias, da jornalista Roberta Tum) “causou” nas redes sociais ontem. O motivo era óbvio: uma mistura de falta de conhecimento e medo da população, incentivados pela colocação inadequada da profissional médica. As reações à Astrazeneca (conforme estudos da Agência Européia de Medicina) são de 0,00021%.
Daí ter sido liberada, no início do ano, nos países daquele continente. Debate científico vencido. Mas pessoas que conheço, se já eram contra a Astrazeneca desde as denúncias anteriores aos estudos científicos, viram nas declarações da profissional motivação para não vacinar-se, num país que já sofre por falta de imunizantes. A profissional disse que foi mal entendida, mas não havia mal entendido algum nas suas declarações.
Assim como não os há no que defendeu na entrevista: que a vacinação está errada no país. Na sua avaliação, os jovens deveriam ser vacinados primeiro. E por que, conforme a doutora? Porque o jovem está na vida ativa, tem que sair para trabalhar. O idoso, não. Seria, no mais das vezes, aposentado, e não precisaria sair de casa. Não parou por aí: o idoso tem que ficar em casa, se não vai morrer de fome. De outro modo, os idosos seriam sustentados pelos novos.
A declaração atribuída à profissional é de uma imbecilidade científica e moral avalassadora. No Brasil, idoso é a pessoa com idade acima de 60 anos e para aposentar-se no país tem que ter 65 anos. Ou seja, a maioria dos idosos está na ativa.
A doutora pode dizer-se mal entendida novamente. Do mesmo modo que tem o direito de expressar sua opinião sobre o assunto. O problema é a ciência e os desdobramentos de sua fala naquele que não tem instrumentos para pensar diferente.
Talvez queira que, ao verbalizar que os jovens devem ser vacinados primeiro que os idosos, esteja querendo apenas dizer que defende vacina para os jovens. Um malabarismo lógico sem pé nem cabeça no sentido de tergiversar sobre o sentido das palavras e da semântica.
E o que dizer dos jovens terem que se vacinar primeiro porque estão na ativa? Ora, como é sabido (a ciência está aí) a vacina não elimina a possibilidade de contaminação. Ou seja, o vacinado pode ser contaminado ou contaminar alguém. Ela apenas ajuda no enfrentamento do vírus no caso da pessoa ser contaminada, reduz os efeitos do covid-19.
O jovem vai para a rua, se contamina (porque pela ciência o vacinado também se contamina e contamina outros) e leva o vírus para o idoso que está, na avaliação da médica, em casa esperando a pandemia passar. Sem o imunizante que pode ser a diferença entre a vida e a morte, no caso da contaminação.
Agora, me diz aí: qual é o mais frágil no enfrentamento do vírus: o jovem ou o idoso?
Uma boçalidade.


