Estatísticas, em boa medida, traduzem realidades imaginárias ou, não raro, instrumentos políticos dada a capacidade dos números convencerem as pessoas mais pelo que deles não se entende do que pelo que delas possam abstrair conscientemente para efeito de convencimento.
É o caso da informação estatística divulgada ontem pelo IBGE que aponta ter o PIB do Tocantins registrado o maior crescimento dentre as demais Unidades Federativa do país em 2019, com o índice de 5,2% em relação a 2018. A conexão com o governo é imediata. Aliados do governador afastado passaram a tratar a questão como resultado de sua administração em 2018 e 2019.
Ainda que o crescimento tenha sido bombado pelo desempenho da agropecuária (aí inclusas a indústria de celulose e as exportações de carne e soja) – 31% - que independem, via de regra, do poder público. Subordinadas mais ao dólar e ao mercado internacional que ao fomento público.
E aí como não lembrar da região Norte de Goiás quando se guardava a emoção das imagens dos jogos da Copa do Mundo para dois ou três dias depois de acontecidos. Depois de tê-los ouvido no radio e lido nas revistas e jornais nacionais que circulavam no Estado antes da TV. A Copa de 74 só foi possível com o circo dos ciganos que carregava uma fita cassete e cobrava, dois anos depois, por sua exibição.Mas era como se fosse ao vivo.
Época em que a região contava com voos diários da Varig e Vasp (cidades conheceram aviões primeiro que carros). Uma emoção retardada ou retardatária tal o final das novelas que se lia nas revistas mas só se assistia dois a três dias após sua exibição no Sul maravilha, depois das fitas serem transportadas de ônibus para a torre de retransmissão em Gurupi.
Mas não é o ponto. O PIB de 2019 teria fechado em R$ 39,5 bilhões. Um PIB per capita de R$ 25.021,00/ano (R$ 2.085,00/mês). Diferente desse pibão aí, o governo federal pagou de Bolsa Familia no Estado naquele ano R$ 22 milhões mensais. Eram 116 mil famílias beneficiadas (464 mil pessoas/na média estatística do IBGE).
Ou seja, um terço da população do Estado era beneficiado em 2019 com a ajuda do BM de R$ 189 mensais. Isto aí dá uma média de R$ 47,5 por cabeça, contra o pibão per capita (celebrado ontem) de R$ 25.021,00 (R$ 2.085,00 mensais) por cada alma bendita. sabida e entendida.
Em 2021, o governo estima um PIB de R$ 41,6 bilhões no Estado (LDO/2022). Um crescimento de 5,3% em relação ao pibão de 2019. Ou seja, um pib per capita de R$ 25.625,00 anuais (R$ 2.183,00 mensais).
Já no Bolsa Família, o governo federal pagou em outubro/2021 um total de R$ 11 milhões a 121 mil famílias (484 mil pessoas). Isto dá um benefício para cada família de R$ 90,00 que dividido por quatro (estatística do IBGE de uma família média) dá a miséria de R$ 22,00 de renda per capita/mês para quase meio milhão de pessoas no Tocantins.
De outro modo, enquanto se comemora o crescimento do PIB de três anos atrás, deixa-se de lado que nos dois anos seguintes (2020/2021) a miséria cresceu no Estado 4,3%, a uma média de 600 pessoas entrando na pobreza oficial a cada 30 dias. Na mesma razão em que via sua renda reduzida em 47% no corte financeiros dos benefícios.


