A maioria das pessoas (inclusive jornalistas) não liga muito para os números. É o mesmo viés que faz com que amplifiquem o peixe com melancia de Mauro Carlesse e omitam o desempenho das finanças estaduais.
Ignoram qualquer conexão entre os números e a vida do cidadão. Para melhor ou pior. Seja pelo que poderia ser feito ou pelo que não foi feito. Evidentemente que o não fazer não eliminaria o mérito da consecução dos recursos.
Peixe com melancia, com efeito, diria respeito a vontades e gostos individuais e degustado em local privado, não é da conta de ninguém. A não ser que represente um crime ambiental misturar peixe com melancia. No máximo, um risco estomacal. Mas tem estômago pra tudo. Até para comedor de gillete ou engolidor de fogo.
Quando mudei para estudar em Goiânia (na primeira metade dos anos 70), no vigor dos meus 13 anos (com uma mão atrás e outra na frente), os goianienses não entendiam por que diabos eu gostava de abacate com farinha de puba que meu pai despachava mensalmente nos ´ônibus da Viação Araguarina junto com uma carta num envelope colado com cuspe ou grude de tapioca. Meu pai e eu sabíamos porque comíamos abacate com farinha de puba. E sem açucar. Não era uma questão de ter opções e sim não ter outra opção.
Ficava dias comendo só abacate com farinha de puba e lendo e relendo as cartas que minha mãe escrevia com sua letra redonda e maravilhosa, proveniente de anos de exercício nos cadernos de caligrafia hoje inexistentes. E que sempre terminava com um "de sua mãe que te ama sempre". Depois de conseguir com muito esforço pagar-me um curso de datilografia. Até hoje não esqueço do ASDFG e ÇLKJH. E os outros teclados depois. Hoje manda-se áudios no zap.
Se dissesse a eles que os carmelitanos (Monte do Carmo) não gostavam que os chamassem de nascidos na capital do abacate e que a fruta talvez fosse (dadas as suas características proteicas) aos carmelitanos a porta de saída do pretorado e principado que os políticos locais cultivavam para cultivar suas influências e poder locais, não entenderiam mais ainda. Hoje não se fala mais de abacate em Carmo. Pena. Substituiram-no, no imaginário popular, pelo peixe com melancia do paranaense Mauro Carlesse.
Essa questão aí encobre outra: relatório da Secretaria da Fazenda (publicado esta semana na página do órgão) – sem qualquer disseminação ou reverberação pública dos políticos – revela que o governo arrecadou de recursos ordinários (fonte 0100, de livre aplicação/sem vinculação) o valor de R$ 5,516 bilhões de janeiro a setembro de 2021, contra uma previsão inicial para o período de R$ 4,545 bilhões. Ou seja: R$ 971 milhões a mais. Ou: sete pontes no valor da que se ergue no rio Tocantins em Porto Nacional.
Comparando com janeiro a setembro de 2021, o crescimento das receitas totais foi de 6,85% reais em relação ao mesmo período do ano passado. Impostos, Taxas e Contribuições de Melhoria: a arrecadação acumulada de janeiro a setembro de 2021 foi de R$ 3,59 bilhões, com variação nominal de 21,29% e real de 12,69% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na arrecadação de ICMS (R$ 2,85 bilhões), verificou-se um crescimento nominal de 27,16% e real de 18,14% em relação a igual período de 2020. No FPE, registrou-se um crescimento nominal de 33,92% e real de 24,13%.
No ICMS é importante ressaltar: em 2019 (janeiro a setembro) a arrecadação foi de R$ 2,2 bilhões. No mesmo período de 2020, o volume de R$ 2,3 bilhões. E em 2021, de janeiro a setembro, a arrecadação já batia os R$ 2,9 bilhões.
A comparação com a terra arrasada deixada por Siqueira/Sandoval e Marcelo Miranda seria inevitável e mais plausível que o peixe com melancia das redes atuais.
Mas o foco é crime da melancia com peixe, preparatório e sustentação do afastamento do qual a população (e os diretamente interessados) só tem conhecimento por vazamentos planejados quanto criminosos. Tão ou mais nefastos que a comprovação das acusações disseminadas a conta-gotas sem o exercício do contraditório.
Que todo cidadão, criminoso ou não, goste ou não de melancia com peixe, constitucionalmente tem direito num estado democrático. O contrário é a tirania do bem quando os fins justificariam os meios quando, pelo contrário, os qualificam.


