A ser como noticiado ontem pela jornalista Roberta Tum (T1 Notícias), o Estado estaria às vésperas de protagonizar mais um escândalo nacional.
A finalidade da proposta de emenda constitucional para a eleição da mesa diretora do Legislativo (leia postagem anterior) ao quadriênio (e não biênio como determina a CF) não seria produto do acaso. Ou tivesse correspondência com a “altruísta” justificativa apresentada.
Muito embora a tal justificativa por si só já clamasse por uma lógica, a partir do paradoxo e da contradição que carrega. Algo que foi feito no pressuposto de que ninguém a lesse ou juntasse lé com cré para dar-lhe sentido. Um monte de platitudes que contrariam tanto o sujeito quanto o objeto.
Seria garantir, agora, não só uma negociação, mas o comando da Assembléia a Amélio Cayres (2023/2024) e Leo Barbosa (filho do governador) de 2024 a 2026. Como já apontei aqui, Amélio seria a bola da vez, tanto pela experiência no cargo quanto pela representação e articulação política.
Desde já, pela PEC, entretanto, os dois seriam presidentes eleitos esperando a hora de tomar posse no cargo. Os deputados já teriam reunidos para garantir quórum. Como das outras vezes, fora do público. Inclusive com a participação de deputados que se dizem oposição, sem vícios e cheios de virtudes.
Todos muito bem pagos pelo contribuinte para pensar na coisa pública, em melhorias para a saúde, educação, infraestrutura ou fiscalizar o Executivo no atendimento das demandas das comunidades de um Estado comprovadamente pobre (quase um milhão de pessoas pendurado nos programas sociais do governo federal). Com vencimentos que se elevam a R$ 100 mil mensais cada um, somado o salário, Codap e outros penduricalhos que garfam no bolso da viuva.
A idéia de gênio, diz-se do deputado Ricardo Aires (curiosamente presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia) possibilitaria Leo Barbosa assumir o governo em 2026 numa eventual renúncia do governador Wanderlei Barbosa para disputar outro mandato e outro cargo.
Isto garantiria, na tese espantosa, a posse do filho, presidente do Legislativo, no governo no lugar do pai no Palácio Araguaia. Podendo, claro, sair candidato ao governo. Como se nota, a tese dá ao governo do Estado o caráter de um bem particular, transferível por parentesco. Bastaria o aval de parlamentares.
E que se note: Leo teria legitimidade para disputar a presidência do Legislativo tanto agora como em 2024. O pacote fechado sugere, entretanto, Legislativo e Executivo formando um só poder. É claro que o próprio Wanderlei teria o seu poder (ganho nas urnas) reduzido diante da antecipação de sua sucessão por intermédio do arranjo legislativo.
Obviamente que só a possibilidade de uma negociação dessas envolver a maioria legislativa já daria o perfil moral e ético de cada parlamentar nela envolvido. E sua preocupação com comezinhos princípios republicanos e constitucionais. Isto porque o governo já se mobilizaria e a seus recursos para garantir, desde já, também, a reeleição do filho do governador, no caso da vacância do cargo do governador e do vice. Algo impensável nas democracias constitucionalistas. O Governador já seria o filho com quatro anos de antecipação.
Os espertos contariam com uma renúncia do vice, Laurez Moreira, que preferiria, na engenharia dos iluminados, disputar outro mandato do que assumir o cargo de governador, com direito à reeleição.
Isto aí sendo discutido no exato momento em que o governo tenta aprovar um orçamento de R$ 12,8 bilhões ( uma perspectiva de R$ 52 bilhões em quatro anos), o Palácio pede autorização para contrair R$ 1,5 bilhão de empréstimos (aumentando a dívida contratual com bancos em 50%), cria lei elevando fundo de transportes para aplicar meio bilhão em infraestrutura anualmente (R$ 2 bilhões em quatro anos) e o governo pode fechar o exercício com um superávit de algo próximo de R$ 1 bilhão.
Ou seja, se depender de cascalho, a cascalheira vai estar cheia.
Dífícil imaginar o governador Wanderlei Barbosa dando sinal verde para essa presepada e se disponha a cair nessa esparrela que será piada nacional e certamente terá resistência no Ministério Público e no Supremo Tribunal Federal dado o que ela afronta de forma inequívoca e escandalosamente.


