A estratégia eleitoral dos adversários da prefeita Cínthia Ribeiro ampliou-se do sagrado para o profano. Se dias atrás um pastor (que arrebanha eleitores para seus candidatos escolhidos a cada dois anos) defendeu que a prefeitura apoiasse apenas o carnaval da fé (o carnaval do amor seria profano), leio, agora, que um pastor da Igreja Anglicana pediu abertura de inquérito contra Cínthia pelo áudio vazado (uma conversa privada) acusando-a de crime de racismo e de LGTfobia!!!! Em defesa, por lógico, do por eles considerado profano.
Não é nada novo numa igreja que foi criada a partir de um rei que decidiu romper com a igreja católica para deixar a esposa e se casar com a amante. A igreja tem mulheres sacerdotes e pastores gays. Um avanço. A católica e a evangélica também os tem, mas não os autoriza nem os assume. Negam a condição humana e, com ela, as opções de gênero que seguem com o ser humano desde sempre.
O suposto crime, entretanto, é esta conversa privada da prefeita e que não tem nada a ver com liberdade de gênero. E sim com o direito de todos em favor da liberdade que não é absoluta: "...É um bar (Mujica) que é só LGBT, mas sabe, aqueles guetos, dos guetos, dos guetos, uma coisa sociável não, é um baixo clero, uma coisa louca..".
A prefeita pediu desculpas aos que se sentiram ofendidos. Uma decisão mais política do que técnica. Assim como a ação dos "anglicanos" que não irá adiante por questões óbvias. Tanto pela forma como pelo conteúdo. A conversa não nomina pessoas e a prefeita, como é notório, não quis detratar publicamente ninguém dado que a conversa foi com apenas um interlocutor. Ela pode, em particular, ter a opinião quiser sobre determinado fato ou pessoa. Se crime houvesse, ele estaria no meio que a expandiu e não na mensagem.
Aponto, de pronto, que a prefeita se refere ao lugar e não às pessoas. Contraditá-la neste sentido seria afirmar como sociável conviver com dejetos de fezes e urinas no espaço público após as "celebrações" (que devem ser assim consideradas pelo pastor da igreja anglicana) e as ocorrências de sexo explícito em público, consumo de drogas ilícitas, roubos de caros informados até pela Polícia Militar. Um conceito muito especial de sociabilidade.
Como evidentemente as pessoas normais (aí incluída a maioria dos LGBTs, gênero não é condição de sociabilidade ou não) que não fazem o mesmo da mesma forma, aquelas que buscam o lugar, o procuram porque lá, em tese poderiam fazê-lo sem serem discriminadas. Um gueto de discriminados sociais não por virtudes que pudessem possuir, mas por vícios que necessitam cometer no público e não privado, já que poderiam expandir-se em lugares fechados. Do contrário, estariam liberados para fazê-lo em qualquer lugar público da cidade!!!! E aqueles que não concordassem, os aceitassem.
Agora os crimes imputados à prefeita. A lei estabelece crime de racismo:
"Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".É preciso fazer esforço até metafísico para alojar as declarações do áudio vazado em discriminação ou preconceito de raça, etnia, religião ou procedência nacional. Ter-se-ia, para dar guarida à crítica da igreja anglicana, que considera LGBTs que fazem o que os frequentadores lugar são acusados, fossem uma raça, cor, etnia, religião ou estrangeiros. Seriam inimputáveis e não sujeitos à crítica social por seus atos apenas por serem o que são. Ora, me ajude aí!
A LBGTFobia não é ainda regulamentada por lei. O Congresso ainda não a regulamentou. O STF, até lá, tem decisões equiparando-a ao racismo. De outro modo: quando o pastor acusa dois crimes, está cometendo uma falácia porque, contra LGBTs o racismo já é a LGBTfobia.
Poderiam ter acusado crime de injúria. Mas aí seria pior: o injuriado seria o bar e não as pessoas de forma difusa.
Mas eles não ligam para isto. Eles querem é atacar a prefeita e ganhar os holofotes. E o Mujica continua com sua propaganda de graça e aumentando sua clientela pelo tratamento de gueto dos injustiçados com que agora também a igreja anglicana decidiu carimbá-lo.


