Quando oportunismo político faz uso do racismo estrutural como instrumento não de luta político-social, mas de interesses não correlatos, se está diante, não de processos legítimos, mas de simples vigarice ideológica, resguardadas as exceções de praxe que confirmariam a regra.
É o que se pode deduzir - mesmo considerando as melhores das intenções - da movimentação de três entidades ditas representantes do movimento negro e uma partidária (e sua amplificação nas redes sociais) contra a nomeação, pela prefeita Cínthia Ribeiro, de uma “mulher branca” e “loira” - como o tratam - para a Secretaria de Igualdade Racial.
Um claro exemplo de intolerância racial como peça argumentativa de uma contrariedade racial. Uma guerra de movimento das entidades em ano eleitoral que, tomado o sujeito e o objeto, assemelha-se, pela forma, a um tribunal da Inquisição.
Só falta escolher dentre eles o Torquemada da vez a quem aproveitará o ativo da corrente dantesca por irracional, ilógica e tão mal pensada quanto primitivamente deflagrada.
Assemelhando-se, na forma e impulso, aquele movimento de entidades ditas culturais para derrubar o Secretário de Turismo e Cultura pretextando atropelar a legislação para liberação de recursos de Leis federais.
Ou a ação contra concessão da exploração de parte do Jalapão com argumentos fajutos (do ponto de vista econômico e político) e falaciosos pois explicitamente contrários ao que previa a lei.
Se naquele, o governo, emparedado, reagiu contra, no último aquiesceu e até hoje sabe-se os grupos que lucraram e ainda lucram com a miséria paradoxal que continua presente no lugar.
Repetem em Cínthia a estratégia primária e tosca. Primeiro, obviamente, a má-fé que grita pelo vício de origem e princípio tão comuns na militância desinformada e conduzida: a Secretaria é de Desenvolvimento Social e Igualdade Racial. E não somente de Igualdade Racial que na pasta é atribuída a uma Superintendência coordenada por um negro.
Isto mesmo: um negro cuidará da Igualdade Racial na Secretaria de Desenvolvimento Social e Igualdade Racial. Nem observaram no negro que comanda o setor de Igualdade Racial na Secretaria de Desenvolvimento Social e Igualdade Racial. Não seria um negro que importasse.
Miram apenas na "mulher branca", ainda que fosse-lhes concedido, pelos tais, o respeito ao seu trabalho na administração pública, na inócua tentativa de travestir um preconceito racial invertido.
Não são temas correlatos, contudo, onde um pudesse implicar no outro. Não se está diante de um maior que correlacionasse com um menor, ou o dobro com a metade. Ou como a virtude que é o contrário do vício.
A cidade não é só raça, é emprego, comida, educação, saúde, diversão e arte. Caso contrário, primeiro, nas prioridades públicas, se observaria a raça, depois a necessidade. O Bolsa Família (que beneficia 160 mil famílias no Estado/640 mil pessoas) seria entregue seguindo a regra racial.
Segundo: a prefeita Cínthia Ribeiro tem nas suas competências (Lei Orgânica/Constituição Federal) o poder de nomear e demitir secretários.
Condição racial não é, por certo, pré-requisito para se escolher um administrador eficiente da coisa pública. Sim, há negros competentes como há brancos incompetentes. O vice, obviamente, atrai o versa. Mas a prerrogativa é da prefeita.
A opção por um branco não seria por si somente expressão de racismo. Como o é a intolerância em repudiar o branco porque o negro deveria ser escolhido. E no caso, a Igualdade Racial será comandada por um negro.
Se assim o fosse e o eleitor (aquele que escolhe) deste modo observasse, teria colocado um negro no Paço Municipal. Pode vir a fazê-lo, mas ainda não o fez. Escolhas da democracia.
O mesmo eleitor que não satisfeito com o desempenho da prefeita (uma brancona que elegeram) tem o instrumento para cassar-lhe a procuração: o voto universal. Seja por critérios raciais, desempenho, ou o que lhe valha e convenha.
Ademais, não se viu por aqui nenhum movimento negro contra o presidente Lula que nomeou dois ministros branquelos para o Supremo Tribunal Federal. Uma Corte onde não há um negro sequer. Mas uma competência do presidente a nomeação.
Também os movimentos negros se seguram na fila de espera do governo do Estado que há mais de ano anunciou que criaria uma Secretaria de Igualdade Racial que não saiu do discurso. Outra competência, agora do governador. Sem protestos.
Teve que aderir, no final do ano passado, ao plano de igualdade racial do governo federal com a Secretaria de Povos Originários.
Os movimentos (os líderes mais expressivos) agora se batem nos bastidores políticos e corredores palacianos com o PT que reivindica a tal Secretaria. E que se note: ainda não criada.
O mesmo PT que com sua Secretaria de Combate ao Racismo (órgão do partido) emitiu também ontem nota de repúdio contra o exercício constitucional da prefeita (que, pasme-se, criou o novo cargo). Mas não mira no Palácio Araguaia que ainda sequer criou a secretaria.
Sequer se intimidam também em fazer lobby junto a empresários que acreditam influenciar no governo, mostrando-se como Bakunins pés-de-chinelo a oito meses das eleições municipais.
Obviamente se um perde, outro ganha. E como Cínthia não é candidata à reeleição e não anunciou sua escolha, o movimento oportunista denuncia aquele (e aquilo) a quem estaria a favorecer.
Os movimentos tem o direito de reivindicar e de escolhas. Inclusive de buscarem a representação popular. Mas respeitando as regras e não com subterfúgios e contradições explícitas.
E disto, paradoxalmente, se aproveita o racismo estrutural que discursam, os movimentos, justamente combater.
As eleições de 2024, apesar do desempenho fiscal e administrativo de Cínthia Ribeiro (anotado pelas principais instituições de avaliação de prefeitos de capitais do país) tem apontado, contraditoriamente, a prefeita como o Judas a ser malhado. E, como é notório, não o fazem pela administração.
O problema é a população entendê-la como vítima de grupos políticos e do "machismo estrutural" - também presente não só nos machões de fancaria, mas no mulherio e LGBTQIAPN+ de qualquer raça- que sequer tem discernimento de campo e território eleitoral que dirá ideológico.
Uma chave seria: porque batem em Cínthia como nunca bateram em prefeito nenhum (e com piores administrações) se a prefeita não é candidata à reeleição!!!


