O memorialista Pedro Nava declarou certa feita que era “um sujeito do Bar do Ponto’. Ou seja, era um sujeito definido pelo espaço”. Continua sendo o maior memorialista brasileiro, mesmo após ter se matada com um tiro na cabeça, numa praça do bairro da Glória no Rio de Janeiro numa noite fria há 34 anos. O maior contador de efemérides no país, harmonizando fatos históricos e narrativas pessoais.
O escritor Wolfgang Teske lança nesta terça (Biblioteca Jaime Câmara/Espaço Cultural José Gomes Sobrinho/19h) “O maior desafio” (Editora Dialética/Amazon.com.br/R$ 24,90) e, certo modo, se apropria da estrutura linguística e literária do Bar do Ponto de Nava para retratar os fatos que permearam a instalação da Universidade Luterana do Brasil em Palmas no início da cidade.
Como diretor responsável pela instalação, Teske tinha um lugar de observação privilegiado do Bar do Ponto. E desliza suas efemérides suavemente em O maior desafio, como se contasse “causos” na varanda. É uma leitura mais que interessante, que prende o leitor.
Obviamente que sujeito a indagações que talvez fossem justamente a finalidade da obra, mais que registro histórico de um fato. Dificuldades tiveram, ademais, a grande maioria de pessoas e corporações que mudaram-se para a Capital no início dos anos 90. Cada uma escrevendo sua própria história.
Acompanhei das redações as movimentações políticas da instalação da Ulbra. Tanto lá na JK quanto na abertura da avenida Teotônio Segurado para acesso ao campus da instituição.
E logrei êxito no primeiro vestibular para Administração, ali, caminhando sobre muita lama e paredes de madeira no final da avenida JK, quando conheci muito próximo a luta de Teske. Não só administrativa, mas acadêmica e cultural. A Ulbra de madeira e terra batida significou para muita gente a primeira porta de uma faculdade no ex-Norte de Goiás. Um simbolismo muito forte.
O maior desafio conta a história da Ulbra naqueles dias. A resistência política causada pelo dualismo das correntes preponderantes na criação do Estado: siqueirismo e avelinismo, MDB e Arena.
E,claro, a questão religiosa, princípio também abarcado pela Ulbra ao exigir de estudantes disciplina de Cultura Religiosa onde o preponderante era a igreja luterana, num Estado laico e num Tocantins, então, majoritariamente católico.
O governo havia reservado espaço na Praça dos Poderes (Girassol) para uma catedral da Igreja Católica. Os luteranos, evangélicos e outras religiões ficavam com as sobras.
A cidade havia sido instalada com uma missa celebrada por um bispo e padres da Igreja Católica e logo depois foi brindada com um arcebispo cuja entronação teve até a participação de um vice-presidente da República em solenidade de frente para o Palácio Araguaia e o prédio da Assembléia Legislativa, Uma cidade católica por decreto. E neste contexto, apontava a Ulbra.
A Ulbra teve, por exemplo, autorização de um governador (Moisés Avelino) que foi questionada em outro governo (Siqueira Campos) quando, na verdade, a finalidade era uma só: a instalação de uma universidade num Estado carente delas e sem recursos para implantá-las.
Um debate que O maior desafio expõe não sem cometer um pequeno equívoco: não eram os veículos de comunicação que criaram estar a Ulbra instalada em área verde, como sugerem as memórias. E sim o próprio governo. Os jornais não são obrigados a defender instituições especialmente privadas.
Talvez para alimentar curiosidades, O maior desafio descreve as dificuldades políticas mas omite o nome dos gestores públicos que as promoviam (chegou-se a divulgar que se criaria uma Universidade de Palmas) ou suas finalidades e afinidades empresariais com outros grupos interessados no mesmo segmento educacional.
Conta o milagre mas não diz o santo como no caso do deputado que pediu para o diretor da Ulbra (Teske) “passar” um de seus sobrinhos no primeiro vestibular, quando sequer tinha se classificado na lista de reserva.
É uma leitura muito interessante a de O maior desafio. Mais de três décadas depois, é como se a fotografia daqueles dias revolvesse a nossa memória.
O nosso Bar do Ponto de Nava. Ainda que O maior desafio não se complete por si mesmo dado a indefinição que fica sobre qual teria sido ele. Dentre tantos desafios diários relatados na obra.
Um livro que acrescenta e muito à história e à memória não só da Capital mas do Estado.


