Tomo emprestado um pouco de Émile Zola (A morte de Olivier Bécaille) para dar sentido (ou naturalidade) às duas faces que se costuma entender da morte: a horrível e temível e a outra amável e benévola. Ambas, mesmo adjetivadas, objetivamente princípio e desfecho.
Como Olivier já morto ouvindo sons esmaecidos de sua Marguerite que pareciam vir de longe, poder-se-ia imaginar o jornalista Nogueira Junior, na noite, também de um mesmo sábado, depois da síncope que o deixara inerte e o pensamento cada segundo mais lento e preguiçoso se esvaindo lentamente até não mais senti-lo, adormecido.
Nogueira como tantos outros resistentes, fazia parte de um grupo dependente mais do acaso que do destino. Um excepcional repórter, com cheiro do povão, linguagem própria e que se destacava na garimpagem de histórias com a mesma intensidade com que descuidava-se da vida pessoal.
Não estava só neste sentido: a maioria dos jornalistas dedica-se ao jornalismo por paixão e, não raro, é tratada como pedinte ou cabo eleitoral num Estado em que o poder público e a política tomam de conta de quase dois terços do PIB. Sem redistribuir a riqueza.
Dão-lhe como a parte que lhe cabe do latifúndio, um caixão da caridade bancado pelo poder público e funerais na Assembléia Legislativa, onde será velado o que restou de Nogueira Junior. E notas de pesar. Dezenas, centenas delas como paga por uma suposta indulgência metafísica. Quem sabe, plenária.
Encontrava-me com Nogueira praticamente toda semana na fila de uma lotérica de supermercado. Aliás, muitos jornalistas são frequentadores do mesmo sonho que nunca se realiza. Tanto na vida profissional quanto na sorte grande da loteria. Enfrentam também outras filas: de atendimento, remédios e cirurgias nos hospitais públicos porque, em grande monta, não tem planos privados de saúde.
Nogueira teve o destino previsível de um jornalista que padecia de hipertensão e diabetes que só foi descobrir há quatro anos. As necessidades diárias elevaram o potencial dessa bomba que carregava. Tentava retomar seus programas e o conseguiria porque sabia contar histórias. Evidentemente que se tivesse sido valorizado no que fazia, desarmar essa bomba não seria difícil. Muitos o fazem.
Sigo com Zola:
"O médico acabara de se aproximar num passo rápido. Eu adivinhava-o cansado, apressado, impaciente.Tocara minha mão? Pousara a sua em meu coração? Não saberia dizer. Pareceu-me que simplesmente se inclinara, o ar indiferente. - O senhor quer que eu pegue a lâmpara para iluminar melhor? - Não, não é preciso – disse o médico tranquilamente. Como, não era preciso!!! Aquele homem tinha minha vida em suas mãos e achava inútil proceder um exame atento. Eu não estava morto! Queria gritar que não estava morto! - A que horas ele morreu? – perguntou. - Às seis da manhã – respondeu Simoneau.Não escutaremos mais a taboca rachar. E daqui a pouco, pelo cuidado que se tem com a memória, não se lembrará de uma taboca que rachava. Da mesma forma como se apaga da história do Estado, às escâncaras, muitos rasgos da memória regional sertaneja.


