Sábado, 24 de Out de 2026

O 5 de outubro, o sertanejo e a aceitação estóica da dor de ver narrativas substituindo a história dos curraleiros!!! Com omissão e comissão de historiadores

05/10/2022 845 visualizações

“A resistência física é a primeira qualidade do nosso povo. Manifesta-se por inesperada capacidade de suportar fadigas, privações [...] Inesperada, dizemos, porque a fisionomia, em geral, pouco robusta, indicaria, antes, má disposição para o esforço e para a aceitação estóica da dor.”

A pouca gente importa saber do Frei José Maria Audrin. Ele é autor desse trecho aí na primeira metade do século passado. Depois de conviver com os sertanejos dos vales do Araguaia e Tocantins por cinco anos.

Ele também, um missionário dominicano – que dá nome a escolas em Porto Nacional onde foi sepultado na Catedral Nossa Senhora das Mercês, concluiu isto sobre os sertanejos do Tocantins.

[...] não vegetam em recantos desolados, onde crescem apenas mandacarus, rasga-gibões e xiquexiques. Não são vítimas de secas periódicas que aniquilam criações, inutilizam lavouras e obrigam-nos a expatriar-se à procura do “Inferno Verde”. Não estão sujeitos a lamentável necessidade de disputar o gado e outros animais a água escassa das cacimbas. Não pensem os leitores que nossa gente do interior seja a massa de retirantes que temos visto, com compaixão, desembarcar nas plataformas das estações Roosevelt ou Pedro II, com destino aos cortiços da Pauliceia ou às favelas da cidade Maravilhosa. São pobres, na verdade, porém asseados; não andam esfarrapados e esfomeados [...] São livres; vivem e pelejam num país de florestas, de verdes campinas e várzeas, onde correm águas permanentes, onde o solo é rico e fartas as pastagens, onde nunca faltam caças nas matas, onde rios e lagos são piscosos.

Retomando: conversava com um amigo jornalista ontem para desmarcarmos compromissos nesta quarta. Motivo: feriado. Feriado? Feriado de quê? Espantou-se ele. Da criação do Estado, lembrei-lhe.

É provável que, como ele, muitos respondessem de pronto quem teria sido responsável pela criação do Estado: Siqueira Campos. Mesmo com a data de criação oficial guardada em alguma gaveta da memória residual.

Deveria, com efeito, ser objeto de estudo acadêmico a construção histórica da recente narrativa de criação do Estado.

Ainda que se pudesse ressaltar como relevantes as funções dos atores políticos e, por isto mesmo, realçar-lhes os papéis, na exata medida do que representaram para a consecução da criatura.

Enquanto o dia da criação (5 de outubro de 88, promulgação da Constituição) vai se desvanecendo num feriado qualquer, o “criador” se estabelece na proporção inversa, sublinhando mais tintas no seu papel.

Consequência direta da imposição de uma narrativa paralela acessória que, não sem a conduta comissiva e omissiva de historiadores e academia, devagarzinho recebe, a estória, a condição de registro principal da história e não acessório como de fato é.

E não por falta de interesse dos moradores em conduzir os interesses do Estado.

Lá em 88 (na primeira eleição para governador no Tocantins) foram às urnas 358 mil eleitores (99,66% do eleitorado).

Um índice, em termos relativos, superior aos 81,45% (859 mil eleitores) que compareceu às urnas este ano.

Só aí um indicativo de que a população sabia o que queria, após um abaixo-assinado que reuniu 90 mil assinaturas de moradores dos 44 municípios então existentes no ex-Norte de Goiás.

E que mereceu do então presidente da Câmara (e da Constituinte), Ulysses Guimarães, o apoio porque, nas suas próprias palavras, o Estado não seria a criação de um político.

Abaixo assinado que lhe foi entregue pelo presidente do Comitê de Criação, então juiz federal Darci Coelho. Proposição defendida pelo então governador de Goiás, Henrique Santillo, que conseguiu convencer a unanimidade dos deputados estaduais goianos a aprovarem a criação. Condição indispensável colocada pelo Congresso para divisão do Estado.

Como se nota, a exigência não era apenas coletiva, mas unanimidade contra a narrativa de resutado de uma ação solitária de apenas um parlamentar.

E o que dizer das revoltas no Norte de Goiás no século XIX contra os impostos goianos!!! E os movimentos separatistas da primeira metade do século XX!!

A eleição de 2022 de um candidato que fez uso como premissa principal o fato de ser um curraleiro sertanejo, parece, portanto, fazer emergir o sertanejo de Frei Audrin.

"Não são a massa de retirantes que temos visto, com compaixão, desembarcar nas plataformas das estações Roosevelt ou Pedro II, com destino aos cortiços da Pauliceia ou às favelas da cidade Maravilhosa".

Ainda que neste 5 de outubro  muitos sertanejos curraleiros eleitos tenham optado por restaurar energias nas praias litorâneas. E mantenha no sertão interior um milhão de pessoas que declaram ter renda mensal de até meio salário mínimo e quase 200 mil miseráveis sem ter o que comer no dia-a-dia.

O 5 de outubro? Ah o 5 de outubro!!!

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