No filme Deus é Brasileiro (2003/Cacá Diegues e atores como Antônio Fagundes, Wagner Moura, Paloma Duarte, Stepan Nercessian, Cícero Belém e Marcélia Belém/eles mesmos!), há um personagem de nome Baudelaire Vieira (vivido por Stepan, um goiano de Cristalina), na criação de João Ubaldo Ribeiro (no conto O santo que não acreditava em Deus).
Deus é brasileiro teve cenas em Palmas, Jalapão, Porto Nacional (um dos set de filmagem) e no Nordeste brasileiro. Não bateu recorde de bilheteria porque o brasileiro gosta mais é de ver os policiais californianos. Ter um Deus só nosso e caracteristicamente brasileiro, nem pensar, ainda que se escore sempre que Deus é brasileiro numa eventual situação difícil...para os brasileiros. E fiar-se num santo que não acreditava em Deus, pior ainda. Na literatura não é diferente.
Aliás, um paradoxo o Baudelaire Vieira (um agiota na ficção) em pleno árido nordestino. Fico a imaginar como um sertanejo encontrou para seu filho o nome Baudelaire. O Baudelaire de João Ubaldo passa toda o filme correndo atrás de Taóca (personagem vivido por Wagner Moura e que veio a Palmas para lançamento do longa ali no Cinema do Palmas Shopping) e cujo nome de batismo (dado por Ubaldo, um baiano) era Ediwaltércio. Imagina, onde um pai encontrou tanta combinação de vogais e consoantes!! Agrupados, intui-se, mais pelos sons do coração do que por arranjos linguísticos pré-determinados ou apreendidos..
Da mesma forma que um Hitler Mussolini – junção do nome de dois ditadores da Itália/Alemanha (conheci um delegado com este nome) - no interior do país, onde até anos atrás não havia sequer televisão, que dirá facilidade para adquirir livros. Mas tinha a BBC de Londres, a Timbira, no Maranhão, Rádio Globo, rádio Brasil Central, Tupi ou Clube de Pernambuco.
Do outro lado do oceano, o francês Charles Baudelaire, o poeta onde a poesia pensa, cometia poemas como esse (de As flores do mal) que, como sua obra, renderam-lhe o título de marco da poesia simbolista e moderna: Quem tem os pensamentos como a cotovia,/Que para os céus bem cedo o seu voo já estende,/Quem plana sobre a vida e sem esforço entende/A linguagem da flor e do que silencia!”.
Baudelaire, o francês, morreu de sífilis com 46 anos. Não sem antes ser censurado por ultrajar a moral pública em As flores do mal, contrariando a burguesia. Isto na França!!! Óbvio que antes do Liberté, égalité, fraternité iluminista.
Do lado de cá, o poeta Gilson Cavalcante - nosso Baudelaire não do cerrado mas tão universal quanto o francês -entrou para o seleto grupo dos escritores de língua portuguesa, concorrendo com cerca de 2 mil escritores/poetas (I Candango de Literatura). O seu livro A arte de desmantelar calendários foi um dos destaques do I Candango de Literatura. Gilson prepara mais um lançamento para os próximos meses.
Já são onze livros publicados desde o primeiro (69 poesias Dos Lençóis e da Carne/parceria com o amigo jornalista Helverton Valnir/Baiano, no início da década de 80). E ganhador de concursos relevantes e respeitados de literatura como a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos ou a Bolsa Maximiano da Mata Teixeira.
O resultado do I Candango foi conhecido ontem à noite, Gilson não levou o primeiro lugar (O sono dos humildes/ Alexei Bueno/ poesia, Etelvina/Marcílio Godói/romance e Tramas de menino/João Anzanello Carrascosa).
Mas, diferente do Baudelaire da ficção joãoubaldiana, Gilson Cavalcante é o nosso Baudelaire brasileiro/goiano/tocantinense. Muitos o comparam a Maiakovisk mas o próprio Gilson acha-se seguidor do Baudelaire francês, muito presente nos seus versos, como o espelho de outro poeta goiano Pio Vargas (morto prematuramente na década de 80), como Gilson, com argamassa baudelairiana.
Não só pela densidade literária, mas por encorpar, como ninguém, o poeta que pensa. E que vê na poesia não apenas intuição mas produto de muita leitura. Uma engenharia de emoções diferente do viés revolucionário do russo Vladimir Maiakoviski que chegou a ser chamado de o poeta da revolução comunista.
Gilson estaria mais próximo do Baudelaire francês que, nas palavras de T.S .Elioth “chegava sempre a um correlato objetivo para o sentimento que desejasse expressar”. Em A arte de desmantelar calendários, tem-se isto:
Por ser dado a canhestro/a vida me quis preso nas rédeas do cabresto/andei sempre pela esquerda à procura de arresto/meus inimigos insistem que não presto/mas é na força dos contrários que aposto/por isto o gesto ambidestro no rosto que amo e detesto/ando vago a torto e a direito/pensar, ah, pensar é meu defeito.
O nosso Baudelaire está vivo, ainda que a academia se vinja em sono profundo de sua obra.
Veja mais de Gilson Cavalcante no programa Coisa Nossa, no próximo domingo, dia 25, as 9h30, na TV Norte SBT Tocantins.


