Os bolsonaristas não negam o primitivismo do bolsonarismo. A escolha do governador Wanderlei Barbosa por optar pelo palanque de Jair Bolsonaro ao de Lula já provoca reação nos bolsonaristas de que os petistas (inclusive na imprensa e redes sociais) não estariam respeitando a decisão democrática do Governador. De outro modo: democratas (petistas) não respeitariam o direito democrático dos outros. Seriam contraditórios no discurso e prática.
Não é nada disso: Wanderlei, o cidadão, tem garantido o seu livre direito de escolha. Como liderança política e governador eleito, entretanto, não tem responsabilidade apenas com sua posição pessoal. Mas de chefe do Executivo administrador de R$ 11 bilhões apropriados (através de impostos) de bolsonaristas, petistas, ateus, católicos, evangélicos, espíritas e que tais
Ele justificou que atendeu ao seu partido, aos políticos eleitos e a segmentos da sociedade. Obviamente que não estaria aí o motivo. Isto porque as urnas disseram diferente no primeiro turno. Se pressão existiu, ela estaria nas corporações que tem faturado bilhões com exportações e isenções fiscais.
Paralelo a essa farra, sobrevivem 264 mil famílias (76% da população) na pobreza, extrema pobreza e de baixa renda que aumenta de forma geométrica ano a ano no Estado. E que, é razoável deduzir, não desejariam continuar como estão, numa avaliação óbvia sobre a continuidade.
A maioria dos representantes eleitos pelo voto faz, não raro, do mandato patrimônio pessoal. Não é. A representação é do eleitor que põe e que é o mesmo que retira. Eles sabem disso, mas agem como se não soubessem, só parando quando o guarda sopra o apito. Muitos nem assim compreendem qual o papel e quem é o detentor do cargo.
Do ponto de vista da democracia, assim, a neutralidade do Governador atenderia, de forma mais prudente e em conta, o espectro do voto presidencial no Estado.Até porque a maioria dos eleitores preferiu no primeiro turno outro candidato a votar em Jair Bolsonaro.
E, não menos relevante, Jair Bolsonaro deixou de lado a isenção entre aliados na campanha eleitoral e escolheu outro candidato ao governo: Ronaldo Dimas, despachou seu filho senador à convenção do PL e ele próprio Bolsonaro puxou Dimas pelas mãos em campanha no Bico do Papagaio.
Igualando Wanderlei ao candidato o PT, Paulo Mourão, na figura de oposição. Ou seja, ao, mesmo assim, apoiar Bolsonaro, Wanderlei estaria oferecendo a outra face!!! Aquela que os evangélicos políticos regra geral não a ofertam a adversários ou inimigos.
Já na perspectiva institucional, pior ainda. Mesmo que ele não esteja solitário na decisão (outros governadores e políticos eleitos fizeram igual), o país corre o risco iminente de ruptura do processo democrático e institucional.
E quem nos previne é o próprio Jair Bolsonaro todos os dias no combate ao Judiciário, à Justiça Eleitoral e aos modos civilizados, na paralisia administrativa, nos bilhões das emendas de relator, nos 33 milhões de pobres, nos empréstimos consignados para beneficiários do Auxílio Brasil com juros de 50% ao ano (sem comida e endividados), na esculhambação da Amazônia e no armamento da sociedade. Não só com armas, mas ódio e maledicência.
De qualquer forma é uma escolha mais próxima do perfil de Wanderlei que integrou quase uma dezena de partidos nos mais de 30 anos de cargos públicos, sendo a maioria de direita. Ainda que uma direita conservadora mais tolerante. E não essa extrema direita radical e reacionária que dá massa ao bolsonarismo-raiz.
E que não é uma jaboticaba só nossa: Retorna com força na Itália, Suécia, Alemanha, Hungria, Polônia e França. Um movimento que, com o slogan (como aqui) "Deus, pátria e família" combate LGBTs, imigrantes, acesso ao aborto, defende princípios originários do nazi-fascismo e outro retrocessos civilizatórios.
E para finalizar, acaso ou destino, Wanderlei, como é público, como governador, foi um dos primeiros no país a reduzir a alíquota de ICMS dos combustíveis aos índices indicados por Bolsonaro, negando-se até mesmo a confrontar (como outros Estados o fizeram no STF) a inconstitucionalidade da decisão aprovada pelo Congresso. Bolsonaro ligou a mínima e subiu no palanque de Ronaldo Dimas e Eduardo Gomes.
Combustíveis que ontem sofreram reajuste médio de 1,4% no país e que no Tocantins elevou 7,7%. Ou seja, dos 33% de redução (de 27% para 18%) da alíquota do ICMS dos combustíveis no Estado, foram comidos de uma tacada 23% do benefício. E por que: aumento do preço internacional do barril de petróleo.
E conforme a Petrobras, outros reajustes virão. Ou seja, é só uma questão de prazo eleitoral para voltar o que era antes, dado o represamento do preço por pressão eleitoral. Mas agora pior: os Estados, sem o ICMS, indo para o ralo, como é o caso do Tocantins que perde uma média de R$ 38 milhões mensais de receitas.
Jair Bolsonaro tem direito a se candidatar e ser reeleito. Wanderlei também o direito de apoiá-lo. Não podem (e não devem) eles apoiarem no radicalismo bolsonarista de extrema direita para conflagrar o país que precisa de paz. E não de guerra.


