Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Não há chuva, não há rezas, não há ruas de terra!!! Daqui a pouco não haverá também gente!!! Salve Nossa Senhora da Conceição!! Salve mãe Oxum!!

luizarmandocosta 08/12/2019 678 visualizações

Quando me esgueirava de pés descalço e peito sem camisa pelas ruas Frederico Lemos, Rafael Beles, Mizael Pereira (antiga São José), Pau D’Oleo e rua das Flores (perímetro dos meus passos de infância),  8 de dezembro era dia de chuva. Muita chuva. Nossa Senhora da Conceição e Oxum traziam esperança de muita colheita.

Era época de passar pelas gretas da "finca", pular "macaco" ou de rodar pião e mostrar qual "pião" era mais guerreiro que o outro. Já eram férias escolares. Época de subir em pés de manga ou genipapo e quebrar o braço. De correr pro ribeirão pra brincar de "chupô" no São Domingos tão cheio quanto enlameado.

Mas era dia de bolo e reza. Naquelas ruazinhas de Porto Nacional da metade da década de 60 – um amontoado de becos e casas entre a Praça do Centenário e o rio, o cemitério e a catedral - as rezas a Nossa Senhora da Conceição açambarcavam o ritual da montagem de árvores de Natal.

Na nossa casa, os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos eram uma semana depois: no dia 13 de dezembro, de Santa Luzia, da qual meu pai era devoto. Dia também de muita chuva. E bolo de arroz de Florêncio.

Não o tio, Floréncio Ayres, nascido, como Nossa Senhora da Conceição,no 8 de dezembro e dela como tal também devoto.  Mas o Florêncio do bolo de arroz do mercado onde ricos e pobres enfileiravam-se no amanhecer do dia para comprar um  bolo de ...arroz. O mais  socialista dos carboidratos.

Não tinha instagram, telegram, facebook ou warshap mas Antonio Poincaré, vez ou outra, as noticiava no linotipo do seu Porto Nacional. Jornal que não era jornal por que não diário e sim devezemquandário. Jornal que sucedeu A Norma de João Quinaud, Ananias Pinto e Osvaldo Aires. E Adalmir as impulsionava no auto-falante do Cine Clube Rios de Santa Aires, anunciando filmes em cinemascope. A última novidade da época.

Hoje intuo que talvez chovesse porque a cidade era um povoado rodeado de matas e rios por todos os lados. Diferente das plantações de soja que a circundam e que fizeram-na elevar o PIB per capita, sem, no entanto, aumentar a renda de seus moradores.

Poderiam estar ali nessa revolução respingos do que os historiadores consideram transição de uma sociedade fechada para uma sociedade aberta. E em assim considerando, teríamos deixado o feudalismo das ruas de terra para o capitalismo das tradings.

Se naqueles 8 de dezembro minha mãe invocava com orgulho uma oração que o pai lhe ensinara para amansar chuva braba e pudesse dedilhar as 20 contas do terço de dona Dominga de Agenor ou as 50 contas do rosário de Dona Basília, teve seu escapulário substituído pelo ateísmo das multinacionais que hoje controlam o tempo.

Neste 8 de dezembro de 2019 já não há mais reza, não há mais terços nem rosários, não há ruas de terra, não há bolos nem foguetes, não há chuva. Não há bolo de fubá de Dona Basília, não há bolo de arroz de Dona Domingas, nem bolo de mandioca de Tia Clara, tampouco as pipocas de Dona Maricota ou os licores de Dona Rita.  Pela enumeração e correlação de causas e consequências, daqui a pouco não haverá também gente.

Salve Nossa Senhora da Conceição, Salve Oxun!!!

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