Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Monsenhor Rui Cavalcante: breves impressões sobre uma vida verdadeiramente sem algemas. Humano, demasiadamente humano!! e a nossa reflexão lateral!!ou pontualmente cartesiana!!

luizarmandocosta 01/05/2019 1425 visualizações

Na metade dos anos 90 fiz uma reportagem publicada no Jornal do Tocantins. O título: Fé sem algemas. Matéria de página inteira, umas oitenta linhas, o equivalente, hoje, a uns seis mil caracteres. O personagem: o padre Rui Cavalcante, que ainda não era monsenhor. Sempre tive admiração pelo conhecimento dos padres.

Padre Rui nos últimos 30 anos toda vez que me encontrava lembrava-se como num mantra: fé sem algemas. Evidente que, apesar de sair pelo instinto, o título ia fundo no que eu pensava. E viria descobrir mais tarde, no pensamento do então padre Rui.

Monsenhor Maia, padre Rui Rodrigues, padre Luso (meu padrinho) e outros. Suas filosofias me atraiam e ainda me atraem. Hoje minha melhor leitura é filosófica.  Padre Maia, meu mestre de lógica na UFGo e na vida. Padre Rui Rodrigues, depositário da minha revolta contra o governo militar (ele próprio uma das vítimas dos militares) e, no início dos anos 90, meu particular amigo. Como também o é o outro Rui,  o Cavalcante.

Quando implantou um projeto de educação revolucionário no governo Moisés Avelino (lá em 93), foi pouco entendido. Acompanhei de perto isto com boa vontade do professor que dividiu comigo por várias vezes suas dúvidas e certezas. Acreditei mais nas suas certezas que nas suas dúvidas.

Eu o entendia. Já conhecia a história de Padre Rui, o Rodrigues (um tio meu, Pedro Pinto, irmão da minha mãe, havia sido preso pelos militares na ditadura junto com ele, Pedro Tierra, Dagmar Pereira, Atos Pereira, Doris Cramacho e o jornalista Edmilson Souza Lima, dentre outros).  A lembrança das Veraneio da PF e dos PFs atrás de livros e de minha vó os jogando na latrina, não me sai até hoje da memória. Marx, Engels...e até livros da Marcial Lafuente Stefania, cowboy de bolso, ficaram na mira.

Um educador e pensador tentando implantar (depois do exílio na França) num estado conservador e essencialmente agrário, um projeto revolucionário de Educação. Moisés entendeu até onde pode bancar. O Estado hoje ressente-se dessa dúvida.

Rui, o Cavalcante, enfrenta, hoje, um problema de saúde. Vai superar já que sabe que a fé não tem algemas. Eu caminho há dez anos de Palmas ao Santuário do Bonfim. E me acho ateu. Fé sem algemas. E curioso: o projeto objeto da minha reportagem na época com o padre Rui, o Cavalcante, era um projeto revolucionário pretendido pelo conservador Siqueira Campos.

Padre Rui é companheiro de Siqueira Campos desde os tempos de Colinas. Digo, há 50 anos!! Siqueira está forte como um touro. Pode ter alguns problemas, mas nada demais para que já passou dos 90 anos. A amizade de ambos transborda (e transcende) o tempo.

Nesta semana, lá em Porto, Adalgisa Assunção (ex´-mulher do grande músico Argemiro Assunção) morreu aos 104 anos. Meu pai com 87 (e que curou-se de um câncer na garganta no ano passado) sentiu muito porque tomava café com Adalgisa há mais de 50 anos. Todos os dias!!!

Um vácuo diário. Não sei como preencherá. Mas é forte. Sobreviveu à febre tifo que dizimou sua família, pai, mãe,irmãos,tios e veio a pés de Formosa do Rio Preto, na Bahia, para formar-se no ofício de pedreiro com as freiras dominicanas.

São pessoas diferentes mais humanas, os padres que reverencio. Os padres Rui (Cavalcante e Rodrigues) e Antònio Luiz Maia também, como nós, tinham suas fraquezas. Mesmas fraquezas que, na vida, tiveram Siqueira Campos e tantos humanos.Monsenhor Maia largou a batina por apaixonar-se por uma devota com quem casou-se para desgosto das beatas (e da multidão que esperava a semana para os seus sermões dominicais).

Ver padre Rui Cavalcante e Siqueira Campos com vigor inaudito (apesar das circunstâncias de idade) é algo que supera divergências ideológicas e político-partidárias. Siqueira, por exemplo, pode ter todos os defeitos humanos e demasiado humanos do mundo (quem não os teria?) mas é deveras gratificante a juventude que não viveu a história, ter aí, vivinho da silva, com virtudes e defeitos, um político que proporcionou, na história do Estado, mais benefício que custo. Um superávit grandemente humano nos erros e acertos.

E o padre Rui Cavalcante que viu nele há meio século um Norte, ainda que tivesse que aceitar uma fé sem algemas que sua igreja (como todas outras), filosoficamente, não professa.

 

 

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