No ex-Norte de Goiás, dizia-se daquele com dificuldade de cognição e locomoção que era “quarta-feira”. Uma época em que o preconceito, ainda que fosse inato pela tradição cultural coronelista da região, fazia com que cada casa adotasse um “môco” ou “tolo”. Hábito ou tradição suplantado pelo marco civilizatório.
Oferta de “mercadoria”, com efeito, era o que não faltava num setentrião onde os quilombolas eram escravos, a fome e a falta de vacinas e remédios travavam o crescimento e o raciocínio e os pardos e brancos, mesmo convivendo em igual miserê, abastavam-se da genealogia para laçar negros em Arraias, Campos Belos, Natividade, Conceição, Cangas, Pindorama, Ponte Alta, Jalapão e Carmo. Mandavam os filhos para as escolas e os negros para o pilão.
Não se conta as vezes em que havia resistência a essa adoção forçada onde a inexistência de ação de Estado era, certo modo, preenchida pela igreja católica. Ao tolo, diante das circunstâncias, bastava um prato de comida. E tudo seguia igual como se não estivesse numa exploração humana.
Em Porto Nacional, os padres dominicanos (junto com a população) ergueram no final do século XIX a icônica abade da cidade e a nomearam Catedral Nossa Senhora das Mercês, considerada a padroeira da libertação dos escravos. Não é por acaso que assim se chama e também não é obra do destino as pedras cangas que lhes dão sustentação.
Decorridos 127 anos dos mercedários, o Estado é informado hoje que fazendeiros e presidentes de sindicatos rurais programam para esta quarta-feira um movimento “quarta-feira”, retardatário das manifestações contra a democracia promovidas no 7 de setembro. Ou seja, os “quarta-feira” de uma forma ou de outra chegam.
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