Não arrisco apontar até quando carregaria esse afeto renovado (e celebrado) a cada ano de pioneiro de Palmas.
Pelo correr e extinção inexorável da vida ou por existir, fisicamente, neste lugar, como ser, antes dela.
E ela, como projetado por nossos ancestrais, aqui também já estivesse antes, ainda que como marco e símbolo de uma construção libertária.
Nasci ali próximo da rua do Recantão, em Porto Nacional, onde presenciei parte das discussões sobre a criação do Estado. E já adulto, em Goiânia, acompanhei o debate sobre o lugar da Capítal. O deputado Totó Cavalcante e o governador de Goiás, Henrique Santillo, defendendo nas proximidades de Porto Nacional.
Siqueira Campos, aliado dos militares, mandou os empresários para Araguaína. Depois de matéria de O Popular, escrita pelo jornalista Edmilson Souza Lima (portuense da rua do Buracão com Andorinhas, ex-preso político na ditadura e ex-presidente do Sindicato dos Jornalista de Goiás) apontando a idéia de Siqueira, os militares mandaram o governador dar meia-volta volver.
Santillo instrumentalizou Porto Nacional com prédios públicos para a capital provisória, Siqueira deu o troco: a instalou em Miracema sem qualquer estrutura.
Não tinha vaga em hoteis nem casas para alugar ou vender que atendesse a demanda de pessoas.. Não atendia sequer os servidores públicos necessários para a instalação do Estado.
Não só presenciei isto tudo, como vivi. Era, por concurso público, chefe da Assessoria de Comunicação da Caixa Econômica Federal de Goiás. Cuidava da comunicação de algo próximo de 300 agências da Caixa no Estado (Goiás e região Norte) e duas centenas de veículos de comunicação.
Dois deles do Norte de Goiás, como o Regional (da jornalista Sandra Miranda) e O Estado do Tocantins (do saudoso Otávio Barros). Já antes da criação do Estado e diante da importância dos dos veículos para a separação, fazia questão de encaminhar mídia da Caixa aos dois.
Na instalação em Miracema, corremos para a cidade a mando do então presidente da Caixa, José Marcolino Lincoln (que inclusive inaugurou a primeira agência em Palmas no governo Avelino quando fui o responsável pelo cerimonial em 91).
Depois de ter viajado todo o Estado (em avião cedido por Siqueira Campos) coletando dados para abrir novas agências da Caixa no Estado. Eu era o responsável pela coleta dos dados e montagem dos processos para a autorização da presidência da Caixa. Em Miracema, a Caixa tinha dinheiro para comprar um prédio e instalar a sede própria da Superintendência. Mas não tinha imóvel disponível. Preços!!!
Ainda bem que a Caixa não investiu porque, menos de um ano depois, Siqueira deu a rebordosa com o prefeito Sebastião Borba e mudou com mala na cabeça para o lugar onde hoje está instalada Palmas.
É provável que tudo se esvaneça com os anos e, com o tempo, só nossos filhos, netos, bisnetos celebrarão a data com essa idéia pioneira de participar de uma construção do nada físico.
Mas, até onde vai o pensamento pioneiro, essa idéia tem, nestes 34 anos, aos poucos se amainando naquilo que segrega: pioneiros e não pioneiros.
Uma cidade de 313 mil moradores vai seguindo. Com pioneiros e não pioneiros de todas as partes do país. Muito daqueles não sobreviveram para olhar a cidade hoje e colocar os olhos no retrovisor.
Quando Goiânia (a que o Norte estava submetido) completou 34 anos (1.977) – eu já estava por lá, saído de Porto Nacional, estudando e trabalhando - , a cidade já registrava 700 mil habitantes desde que Pedro Ludovico decidiu implantá-la no meio do cerrado às margens do córrego Botafogo. O dobro da atual população de Palmas.
No 24 de outubro não havia culto a pioneiros nem a não pioneiros. Celebrava-se uma cidade crescendo, pujante. Rio Verde, Santa Helena, Jataí, Itumbiara, Mineiros garantiam a grande produção. Palmas, hoje, sobrevive do comércio alimentado pelos salários dos servidores públicos. E da sangria dos grandes empresários que vendem para os governos.
A cidade é bonita, uma das mais belas do país. A concentração de renda é avassaladora. Os jatinhos nos aeroportos dão mostras do que sucede.
Definitivamente a cidade não cumpriu, até agora, o seu papel. Daí talvez resida a força da melancolia daqueles primeiros dias que, como tantos, presenciei na cidade desde os seus primeiros dias.
Dia de crença num futuro melhor para os moradores da região. Ali prometidos na posse dos primeiros deputados, do primeiro governo, numa quadra coberta em Miracema no final de 1.988, que presenciei sob calor de 50°.
O do calorzão daquele 20 de maio de 1.989 naquele morrote que hoje é o Palácio Araguaia, comendo churrasco de carne fria com feijão tropeiro e assistindo show de Genival Lacerda e apresentações do Grupo Andanças.
No lugar ontem apresentaram-se sertanejos e “influencers” com seus milhões de seguidores de bobagens das redes sociais.
Retomando: Não arrisco apontar até quando carregaria esse afeto renovado (e celebrado) a cada ano de pioneiro de Palmas.


