Sexta-feira, 23 de Out de 2026

MDB quer levar a carne e deixar o osso que é, ideologicamente, para o partido, ter seu antípoda no Senado na vaga de um dos seus senadores

luizarmandocosta 27/02/2019 1439 visualizações

Nas décadas de 60 e 70, Simãozinho era um dos açougueiros mais concorridos de Porto Nacional ali no Mercado Velho, hoje Biblioteca Eli Brasiliense. Uma época em que se comprava carne no gancho, anterior à modernidade do papel de embrulho e da atual sacola plástica. O cidadão ia para o açougue com o gancho vazio e lá pendurava a carne para levá-la para casa. Éramos, sabe-se agora, mais corretos com o meio ambiente.

Carne, só de primeira ou de segunda. O freguês pedia um quilo de carne de primeira, Simão cortava uma chandanca, jogava com força no prato da balança e antes do fiel voltar, a retirava e a embrulhava. Era pegar ou largar. Uma fraude escancarada. E se o freguês comprasse briga com Simão, era retaliado pelos outros açougueiros. Todos irmãos do próprio Simão e usuários da mesma prática. E carne era carne.

Mas não ficava só nisso. Simão adicionava ao produto um pedaço de osso. Se o freguês reclamava, Simão retrucava: se não quer, tem quem quer. Você leva a carne de primeira e o que eu faço com o osso? Era o osso da carne!!!

O MDB que agora não é mais só autêntico, é também ortodoxo (como revela o presidente regional Derval de Paiva ao Portal CT, do jornalista Cléber Toledo) – uma diferença de conceito relevante - se diz ressentido com o senador Eduardo Gomes diante da possibilidade dele ceder o mandato, temporariamente, ao ex-governador Siqueira Campos.

Os emedebistas aceitariam Gomes mas não querem levar o osso da carne que seria Siqueira. Motivos: mágoa!!! Ressentimento nada mais é no dicionário que sentimento de mágoa por uma ofensa praticada. Conclui-se, assim, que, para o MDB autêntico e ortodoxo, fosse uma ofensa Siqueira assumir a vaga no Senado como primeiro suplente.

Um direito legítimo, líquido e certo. Conhecido pelo MDB antes de aceitar Gomes no partido e sabendo-se que levando o titular, leva-se também o suplente. Não para o partido, mas no cargo. Ou o MDB tencionaria substituir os suplentes no dedaço? Se os dados da equação já estavam colocados, por que diabos o MDB teria aceitado Gomes com o suplente de que discordava e antagonizava? O próprio Gomes dele originário.

Ora Siqueira Campos não deixou de ser Siqueira Campos. É suplente de Gomes antes do MDB convidá-lo para a legenda, não sem a concordância (e até empolgação) do MDB regional que carece de mandatos e liderança, afundado nas denúncias de corrupção no seu governo. E no racha que a ex-primeira dama e deputada federal Dulce Miranda provocou, eleitoralmente, no partido, sob as vistas de Derval de Paiva, Marcelo e Brito Miranda, o triunvirato do MDB regional agora ameaçado pela liderança do senador.

Parcela da representação de Gomes é atribuída, sem sombra de dúvidas, ao ativo eleitoral de Siqueira que não foi um suplente como outro qualquer. Muitos votos de Gomes foram dados, na verdade, ao ex-governador. Gomes, assim, cumpre um compromisso eleitoral e é bom que seja assim porque política é compromisso. E Siqueira tem o direito, sim, de fechar sua carreira no Senado. Ainda que a população já lhe tenha concedido cinco mandatos de deputado federal e quatro de governador, disputou a eleição e saiu-se eleito primeiro suplente. É a regra.

O MDB, parece, tenta fazer com Gomes o que fez com Kátia Abreu. Pode ser que não dê certo justamente porque Gomes não é mercurial como Kátia que atendia às provocações de Derval e companhia que sempre quiseram levar a carne e deixar o osso. É uma estratégia que já deu o que tinha de dar: aceitar no privado e demonstrar resistência de público.

Ademais, não se viu Derval de Paiva declarar a posição dos ortodoxos e autênticos sobre os cinco deputados do  MDB entregarem a liderança de um bloco na Assembléia em que eram maioria (cinco contra um) ao deputado Eduardo Siqueira, herdeiro tanto presuntivo quanto direto, de Siqueira Campos. Querem driblar o conceito que firmaram: de que o MDB agora está subordinado à Arena de Siqueira. E não sou eu quem o diz. Mas os fatos. Na verdade, o MDB passou de carne a osso. A resistência tardia e dissimulada bem o comprovam.

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