O jornalista Otávio Barros foi vencido por uma bactéria nos pulmões ontem aos 80 anos. Estou, vinte anos mais novo, há três meses sem consumir bebida alcoólica (uma marca considerável para o quase meio século de ingestão) por força de uma bactéria nas vias aéreas contraída nos últimos dias de 2021 naquelas ações não mensuradas adequadamente de descarte de documentos antigos. Ainda que com máscaras.
Como Barros, registrar “acontecimentos” e “documentos” que os amparam ou desamparam na profissão não é apenas questão de escolha. Não raro nos deparamos diante do conflito se o apego que dedicamos aos documentos que balizam a história não fosse comportamento doentio que evidenciasse uma espécie de psicopatia pela comprovação científica.
Em circunstâncias atuais em que a retórica e a palavra, na forma abstrata, substituem os fatos que tencionam traduzir e que deveriam existir na sua representação concreta, insistir em guardar documentos e a memória é quase um suicídio.
Tanto físico quanto moral e ético dada, não só a sua natureza, mas à efemeridade do produto consumido pelas redes sociais que hoje determinam os registros nos apontamentos humanos e sua comunicação.
Se as máquinas “composer” substituíram o linotipo e os computadores deixaram para trás “réguas de picas” dos diagramadores e a “fotogrametria” dos fotolitos, as redes sociais seguem, com efeito, seu projeto de extinguir o concreto da história, trocando o real pelo ideal ou ideado.
Informou-me praticamente em tempo real a morte de Barros, no sábado, outro acadêmico da ATL, jornalista e poeta Tião Pinheiro. Costumo dizer, como a predizer indevidamente o destino, a Tião (compadre, irmão e companheiro de jornada e de destino há quase seis décadas) que envelhecer juntos (e próximos mesmo guardadas outras distâncias) é uma preciosidade.
Não me considerava amigo de Otávio Barros porque não concreta a avaliação que muitos, na sua morte o fazem na igual medida das relações nas redes sociais, onde todo mundo é amigo desde que concorra, de uma forma ou de outra, para incremento de likes e acessos nas suas plataformas.
Ademais, conhecia bem Otávio para saber que ele não era de ficar dizendo-se amigo. Guardava seus afetos no escondido de suas lamúrias que a vida sempre o determinou desde sua migração do surrado, seco e pobre Nordeste, com tantos outros que fugiram para supostas melhores condições de vida. E que não encontrou no Estado, muito embora o Tocantins tenha-lhe preenchido a alma com a sua missão impar de único e maior memorialista do Tocantins.
Mas relacionava-me com Barros desde o início da década de 80, quando encontravamo-nos, mensalmente, na redação do jornal O Estado de Goiás (dos saudosos amigos Nelson Raphaldini, pai e filho). Ali onde Otávio Barros imprimia o seu Estado do Tocantins. Nos botecos ao lado do jornal, Otávio me desenhava suas andanças por Estados (Maranhão, Piauí, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo) por museus e bibliotecas em busca da comprovação de fatos memoriais (e imemoriais) para compor seus livros sobre a história do Norte de Goiás, antes da criação do Tocantins.
O Museu Zoroastro Artiaga e o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás compunham, então, com o Museu Nacional do Rio de Janeiro, verdadeira mina onde Barros garimpava a matéria prima para suas memórias. Talvez ali tenha sido exposto a bactérias que 40 anos depois o fariam tombar, não sem antes proporcioná-lo e a seus registros memoriais, oportunidade de estabelecer a verdade sobre o Estado que Barros, naquela época (antes de iniciado o processo de criação do Estado), certamente não poderia antecipar mas que seu faro jornalítico (e o conhecimento da historia das então lideranças políticas da região) o faziam precaver-se e às gerações futuras, sobre alterações personalíssimas da história.
Livros que hoje historiadores do Tocantins os republicam sem indicação de origem ou fonte, quando não apenas os repetem a suas plateias, reforçando a tese de que as universidades certificam na atualidade não historiadores mas repetidores de histórias garimpadas pelos memorialistas.
Alguns, como Otávio Barros, não só tratorado, mas negado pelo poder público e pela própria academia, numa distorção que a história há de corrigir, como a própria narrativa inventada para a criação do Tocantins, leitura alternativa que modifica a memória do Estado no beiço de renomados acadêmicos e historiadores mais interessados em interesses políticos que memoriais.
Barros deixou-nos ontem cumprindo o seu destino de contraponto à narrativa mentirosa de criação do Estado que não viveu para ver sucumbir. Sucumbiu-se primeiro àquilo que, cientifica e moralmente, com autoridade desconstruía.
Destino praticamente previsível há pelo menos uma década em que Otávio foi definhando a olhos vistos, mas com a altivez jornalística e memorial intactas. Encontravamo-nos semanalmente num desses supermercados com lotéricas. Ambos atrás do mesmo sonho numérico.
Conversávamos sobre suas dificuldades em publicar e vender seus livros e o descaso do poder público com o seu trabalho único no Estado. Marcamos pelo menos quatro vezes uma entrevista para nosso programa Coisa Nossa (TV Norte SBT Tocantins). Na última, Otávio desmarcou quando a jornalista Mariah Soares e equipe já se encontravam em sua residência.
Intuo que Barros quisesse demonstrar com sua resistência a relevância de sua obra (e de sua história de vida) e, por lógica, a mediocridade da classe política e da academia, na cegueira (quase imoral) acerca da história, tanto a real quanto a criada. E do desvio de avaliação das razões de suas próprias existências em que Otávio Barros era, sem sombra de dúvidas, um tapa de realidade em suas idiossincrasias malévolas para a memória.


