Em Porto Nacional ontem bolsonaristas fizeram manifestação pró-golpe (contra posse de Lula) na Praça do Centenário. A principal da cidade.
Ali, a menos de 100 metros, resistiu por anos a Casa do Estudante do Norte Goiano (Cenog). Centro de discussão dos problemas do país e que irradiava cultura para o então Norte de Goiás. Uma entidade que defendia o iluminismo do conhecimento à escuridão do terror dos quartéis que a velha praça presenciou novamente ontem
Aliás a praça tem um busto de Duque de Caxias que um general inaugurou na década de 70. Os estudantes ( de escolas públicas e privadas) foram obrigados a ficar a manhã inteira, sob sol quente, em fila ordenada como eram obrigados a ficar todo início do dia nas portas do colégio para execução do Hino Nacional antes de entrar na sala de aula (eu um deles) aguardando o avião do general chegar, a convite do prefeito Antônio Poincaré de Andrade (pai do atual presidente da Assembléia, Antônio Andrade) alinhado ao regime militar. Alguns estudantes desmaiaram mas recompostos eram obrigados a voltar à ordem unida.
Antônio Buchim (como era conhecido o prefeito da Arena) chegou até mesmo a colocar um alto falante sobre o prédio da prefeitura obrigando as pessoas a ouvirem diária e compulsoriamente a Voz do Brasil, canal de divulgação dos militares. O alto falante da Prefeitura obrigou os altos falantes do cinema Cine Clube Rios a mudar sua programação musical e de comunicação antecedente à projeção.
Na ditadura, a Cenog expandiu-se e instalou células em São Paulo e Goiânia como outras entidades que lutavam contra o regime de exceção. Seus dirigentes foram presos e isolados nos quartéis do Exército.
Em Goiânia, eram torturados no 10º BC – Batalhão de Caçadores, alí no Setor Santa Genoveva onde, nos dias atuais, os bolsonaristas se reúnem pedindo intervenção militar após uma eleição democrática e limpa. Outros portuenses e nortenses foram obrigados a deixar o país.
Para se ter uma idéia da psicopatia militar, até artistas eram seguidos pelo Exército. Esse registro aí é do dossiê dos militares (SNI) contra um grupo de teatro amador!!!!em Goiânia, do qual eu participava (Opinião) e que era liderado pelo ator Wertember Nunes e Tom Zé. Atuei no grupo no período. Eles buscavam os líderes (diretores) e foram atrás do Wertemberg, que é portuense e hoje trabalha com bonecos gigantes em Taquaruçu.
Fiquei fora do dossiê (não fui qualificado, apenas relacionado) porque, à época, 1.983, cursava o quarto ano de direito na Universidade Federal de Goiás e não pude participar do Congresso de Teatro Amador, bisbilhotado pelos militares. Na ficha tem o Melk (que foi presidente da Fundação Cultural), tem a Selma (então esposa do cantor Valter Mustafé). E tantos outros que apenas faziam teatro amador.
Selma era professora e diretora de teatro. O grupo Opinião, liderado por Wertemberg (e do qual eu participava) desenvolvia na época um projeto Teatro Interação Escola Comunidade, em parceria com a Universidade Católica de Goiás. Apresentávamos na periferia de Goiania. Veja aí os dossiês malucos e cujos expedientes agora são novamente defendidos por enérgumenos sem leitura ou conhecimento histórico.
Pois bem. Lula será diplomado amanhã. É a certificação pela Justiça de que é o presidente eleito com direito a assumir o cargo no próximo dia 1°.
Pega o cargo de Jair Bolsonaro cujo maior feito foi elevar em quatro anos um milhão de armas nas mãos do cidadão comum e dos milicianos. O equivalente, estatisticamente, a 78% a mais do que as armas existentes no pais em 2018.
Bolsonaro deixa um rombo de R$ 500 bilhões nop setor elétrico. Cerca de 700 mil mortos pelo Covid pela negligência, negacionismo e atraso na vacinação. Cobertura vacinal em queda (baixou de 60%/2021 para 44%/2022).
A menor projeção de crescimento do PIB dos países da América Latina, 33 milhões de pessoas não tem o que comer, 11% das crianças e adolescentes estão fora da escola, o país é o oitavo mais violento do planeta (22 homicídios/100mil habitantes), um buraco no orçamento de 2023 de R$ 142 bilhões, sendo que só na educação é de R$ 15 bilhões.
Jair Bolsonaro, tudo indica, gastou quatro anos alimentando ódio e o retorno da ditadura, não sendo admoestado pelo Congresso pelo pagamento de R$ 19 bilhões de emendas secretas do relator a parlamentares. E sem problemas com o STF por força do alinhamento do procurador geral da República.
Apontar isto aí não é ser contra direita ou a favor de esquerda. É defender as instituições e obrigações dos titulares de cargos públicos.
E repelir a abjeta tentativa de golpe militar. Um sistema que fechou o Congresso, o STF e aboliu, dentre outras coisas, o habeas corpus, possibilitando a prisão de qualquer pessoa sem flagrante delito ou decisão judicial.
Era, em síntese, o moto-contínuo de Jair Bolsonaro com o apoio da quase unanimidade de deputados e senadores do Estado.


