A idéia de não ser que a morte carrega deveria explicitar nosso cérebro a temer, também, o tempo em que não éramos. Mas prevalece a busca da existência, mesmo efêmera pela infinidade do tempo. O não ser depois da morte, parece incontestável, não seria diferente do não ser antes da vida.
A jornalista/colunista Kibb Barreto deixou de ser neste domingo. Poderia enaltecer suas qualidades e amainar seus defeitos, trocando a filosofia pela razão dos afetos. Afetos de irmão.
Uma grande amiga, companheira, leal e não compreendida por alguns dos que dela fizeram uso, aproveitando-se de sua extrema capacidade de conquistar pessoas que para muitos, especialmente no meio em que ela vivia, era ativo político eleitoral. Apesar disso, fez muitos amigos e amigas incondicionais.
Kibb foi sempre Kibb. A morte a pegou, creio, de surpresa. Não tinha doença incurável, apenas um mioma e depois aderência por força de sua vaidade. E daí, deixou-nos como tantos óbitos carentes de explicação nos hospitais públicos. A despeito de cuidados profissionais que, no entanto, não tem o devido respaldo da estrutura política e administrativa.
Nos 30 anos que convivemos (seja no jornalismo, seja na relação pessoal) permaneceu fiel aos seus princípios, ainda que lutasse para sobreviver de forma digna enfrentando as dificuldades de mãe e profissional não valorizada pelo que proporcionava a quem de suas qualidades fazia uso.
Muitos amplificando, neste domingo, nota de pesar por seu óbito, mas que a relegaram ao desemprego e à própria sorte (ou falta dela), com filhos para criar, sem companheiro, e tudo a isto inerente, apesar de sua capacidade profissional, impulsionados pelo mais puro e imoral fisiologismo político partidário. O mesmo vício presente que tenta transformar profissionais de comunicação em cabos eleitorais. Sem pensamento próprio.
Nos últimos cinco ou seis anos anos (até a sua internação repentina), encontrávamos praticamente todos os dias em horário determinado. Seja na praça de alimentação do Extra ou do Big. Ora discutindo política, ora nossos próprios projetos que almejávamos viabilizar para sustentarmo-nos e a nossas famílias. Noutras, sobre vida e morte. Uma rotina diária. Tinha muitos planos. Tínhamos poucas condições de implementá-los.
Kibb sabia perfeitamente que, num caso como este, estaria eu escrevendo deste jeito sobre sua partida que para mim é chegada. Conhecedora do meu pensamento de que quando deixamos de ser, retomamos à situação de quando não éramos. Mesmo que quando falávamos de morte (de outros amigos) não nos despertássemos para a possibilidade concreta da nossa própria morte. E de como reagiria o sobrevivente. E que neste domingo é real.
O problema é a saudade!!!!que deveria ser apenas lembranças. E isto não conseguimos dominar. Esta vontade de não apenas lembrar, mas ter novamente, aplacando o que tanto dói e vai doer por muito tempo.
Quem sabe depois de sua morte, lhes prestem as honrarias que sempre mereceu em vida e que em vida a negaram.
Há muitos kibbs e muitas kibbs na fila. É só uma questâo de tempo. Assim como devem estar pre-agendadas as respectivaa notas de pesar a deles se afastar quando proclamam, paradoxalmente, aproximar-se.
Tudo uma questão de oportunidade. A Kibb queria apenas viver . E ser feliz. Não queria acumular riquezas. Como de resto quer a maioria das pessoas. Inclusive jornalistas.
A Kibb certamente trocaria as notas de pesar pelo pagamento do despejo do apto, pela conta de energia e aguas cortadas, por arroz e feijão. Por um emprego digno.


