É do filósofo holandês Benedictus Spinoza (Ethica) o princípio de que “para cada coisa existente, há necessariamente alguma coisa precisa pela qual ela existe”.
O parque de diversões com que 22 deputados de partidos diversos trataram na noite de ontem a eleição da mesa diretora de um poder estadual, não foge à regra.
Amélio foi reeleito para mais dois anos. Leo Barbosa agradeceu o cargo de vice-presidente. Há uma semana havia desistido do cargo de presidente. Há uma ADPF no STF contrária ao seu pleito.
Pelo regimento, entretanto, uma das atribuições do vice é justamente substituir o presidente em suas ausências ou impedimentos.
Uma gripezinha em Amélio, e Leo ali estará direcionando a mesa, tendo no coração e nas mãos o destino do pai no Executivo.
Óbvio que Leo Barbosa não necessita de escora para representação. Obteve a maior votação para deputado na eleição passada no Estado. Não é pouca coisa.
É muito eleitor que nele confia e a quem deve explicações. Bônus e ônus. Leo é o futuro, Amélio, o passado que vai escorrendo.
Se já não precisava de mais comprovação, a deputada Janad Valcari a deu com maior clareza, abrindo seu voto para fotografias e eleitores nas galerias.
Não que Janad não soubesse do Artigo 11-A do Regimento Interno do Legislativo que determina ser o voto secreto. Mas está em pré-campanha e demonstra não ser muito dada a normas estabelecidas.
Não o sendo, a eleição pode ser anulada, óbvio, pela fraude que representa na capacidade de influenciar o voto dos eleitores. Por isto a obrigação do voto secreto.
Não só aqui. Nas urnas, o cidadão que registra seu voto em foto e a publicita responde por um crime. É a lei. Mas o que importa a lei? A mesa sequer parou a votação. Era como se não existisse a forma legal.
Amélio Cayres (o presidente da mesa reeleito), Vilmar Oliveira (o coordenador da eleição) e Valdemar Junior e Gipão (os fiscais) responderam com sorrisos ao descumprimento da lei.
Vilmar (que também foi reeleito) se disse - do alto da presidência da comissão eleitoral - ser o deputado mais simpático da Casa. Uma festa.
Só perdeu para Fabion que - conhecendo os acordos e membro da atual diretoria - quis ver repetido os nomes para saber em quem votaria. No zap, era possível imaginar um KKKKK de Fabion.
Uma chapa única, acordada e oficializada por todos (foi feita a leitura do ofício). Apesar dos eleitos irem administrar em dois anos orçamento de algo próximo de R$ 800 milhões.
Uma nova eleição certamente daria no mesmo resultado dada a construção política circunstancial.
Mas a lei estaria preservada. E essa é uma das funções parlamentares para a qual os deputados são eleitos e tem salários de nababos num Estado de pobreza estrutural.
Retornando a Spinoza, coube ao PSDB iluminá-lo e dizer não ao processo em curso no Legislativo.
Os deputados Eduardo Mantoan e Junior Geo não compareceram à eleição. Mais que dois ausentes, a posição assume maior relevância do que a união dos 22 presentes.
E isto lhes trará consequências na legislatura, onde um grupo de parlamentares tem dado ao Legislativo estadual a natureza de um clubinho de futebol de botão financiado com impostos cobrados do contribuinte.
Simboliza que o Estado não está dominado por essa linha escancaradamente contrária ao interesse público, na tentativa quase diária de descumprir a Constituição da República e princípios comezinhos de ética e moral.
A dominação do Legislativo, da forma como se dá e pelos motivos com que se move, comprova que ela existe para comprovar que há sim quem pensa o contrário. E eles.se são minorias no Legislativo, podem ser maioria nas cidades.


