Desde que rompeu com o Palácio Araguaia o senador Irajá Abreu decidiu fazer uma inflexão oposta e temerária, do ponto de vista político, a Wanderlei Barbosa.
E o faz com exercício de retórica que, pela fragilidade argumentativa e ausência explícita de fundamentos mais consistentes, acaba por prejudicar a favorecer seu projeto eleitoral de governar o Estado.
É uma movimentação tão primária quanto inadequada posto exercida no Congresso e sem números que a sustentem. A tentação ligeira da crítica em Brasília é aceitável nos novatos. Em veteranos como o Senador do PSD, a medida resvala para outro lado.
É óbvio que o governo tem equívocos. Irajá foi aliado de todos os governos desde que decidiu seguir a carreira política. E não se viu sua adversidade. Sugere que não as via ou que eles não existissem.
Os desvios do Igeprev, as pontes de papel, os escândalos na saúde, a privatização da Celtins e Saneatins sem licitação, as questões na regularização fundiária (foi presidente do Itertins no governo Siqueira) e por aí vai.
Numa evidente demonstração de que sua proposição fosse atingir o público nacional, expondo questiúnculas paroquiais. E, claro, a população do Estado que elegeu o governador.
Um método ultrapassado que depõe contra seu próprio mandato. No meio político não há qualquer dúvida da causa do rompimento com o Palácio em 2022.
Na última denúncia nas redes sociais esta semana, o Senador do PSD (que abrigava os filhos de Jair Bolsonaro em Palmas no governo bolsonarista) fez do palanque do Senado palco para regurgitar a mais viva expressão do fake-news bolsonarista.
Denunciou pouco caso do governo Wanderlei na saúde fazendo um contraponto de que ele teria já encaminhado “mais” de R$ 30 milhões em 2023 para os municípios. Ou seja, um pé de manga dando abacaxi.
É isso mesmo, você deve estar se perguntando o que tem a ver uma coisa com a outra. Recursos para saúde do governo, os recursos que ele mandou para prefeitos, corrupção e os corredores dos hospitais do Estado.
Mas é um método, uma forma pensada, nas redes sociais não tem o contraponto. Só o discurso. A retórica tentanto substituir a dialética. Bloqueio deliberado e modificado da informação.
Sim. Ele sequer aventou a possibilidade de corrupção nos R$ 30 milhões que mandou confessadamente a prefeitos. E veja que ele não falou em recursos para a saúde aos municípios. Só falou nos recursos.
Como é lógico, esses “mais de” R$ 30 milhões no contexto da denúncia contra Wanderlei (na tribuna do Senado, que se diga) só fariam sentido se o Senador os tivesse direcionado à saúde nos municípios para dar alguma fundamentação comparativa.
Ele omitiu esse dado. Assim como as auditorias na aplicação que ele próprio faz na Saúde do governo que já tem o TCE e o MPF (no caso de recurso federal).
E o que mais omitiu o Senador do PSD? O governo Wanderlei Barbosa elevou em dois anos (2022 a outubro de 2023/assumiu o cargo em outubro/21) os recursos aplicados na saúde em 66% contra um aumento de receitas estaduais de 17,3%.
Números disponíveis nos balanços do governo de fácil acesso a qualquer um, que dirá a um Senador com assessorias técnicas de concursados tão bem pagas como competentes. Mas tem a verve eleitoral dos titulares do mandato.
Fechou 2021 (que Wanderlei governou dois meses) gastando R$ 1,547 bilhões (no Fundo Estadual de Saúde) – 16,51% de impostos e transferências – e até o último mês de outubro (balanço do 5º bimestre) já havia aplicado no Estado R$ 1,745 bilhões (18,40%). Só no FES.
Somando todas as ações de saúde pública, a aplicação até outubro era de R$ 2,580 bilhões. E ainda teria novembro e dezembro para fechar a previsão de aplicação de R$ 3,026 bilhões (o valor da previsão orçamentária corrigido para a função ações de saúde pública).
Mas atenção: o discurso do Senador pode confundir ações de saúde pública com o orçamento do Fundo Estadual de Saude para contrapor-se falsa e falaciosamente aos números investidos. O leitor do blog sabe a diferença orçamentária entre um e outro, suas origens, mas também que todos caem no mesmo lugar.
Neste conjunto de dados aí não há um recurso sequer de emendas de Irajá Abreu que nada encaminhou para ações estaduais de saúde (ou de outra natureza) nos anos de 2021, 2022 e 2023. Optou (uma prerrogativa constitucional) por mandar diretamente aos prefeitos.
É, numa metáfora barata, um pé de abacaxi querendo produzir doces uvas.


