Aumenta a pressão sobre os sete deputados estaduais portuenses. E com inquestionáveis razões e vigor inaudito turbinada por uma combinação fatal: os 106 óbitos Covid-19 (Porto ontem registrava 30% dos óbitos da Capital com apenas 17% de sua população), a inexistência de UTIs (fixas e móveis) no Hospital Regional da cidade e a omissão tão funesta quanto deliberada dos seus eleitos representantes.
Somados aos 11.403 contaminados/100 mil (população cinco vezes menor que a Capital e quase os 11.540 casos/100 mil de Palmas) ao descaso e desleixo com a cidade, uma bomba relógio prestes a explodir não só no colo dos parlamentares, mas do governo a menos de dois anos das eleições como reflexo da anomia parlamentar e governamental. Afinal, se 53 mil vidas não importam (agora reduzidas de 106 ontem) que hoje subiu para 111 almas - 106 até ontem - (cinco óbitos em 24 horas, contra nove de Palmas nesta sexta) , 40 mil eleitores decidem um pleito.
Dispensa ser portuense para nominá-los. Nos processos eleitorais, são como se identificam de forma pleonástica acima até da própria dita naturalidade. São eles: Antônio Andrade (presidente da Assembléia), Ricardo Ayres (presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia), Cleiton Cardoso (vice-presidente da Assembléia), Junior Geo, Valdemar Junior (segundo secretário da Assembléia Legislativa), Nilton Franco e Leo Barbosa. Este, herdeiro do vice-governador Wanderlei Barbosa, também natural da cidade
Todos naturais portuenses, conhecedores, por tradição de pais, avós, bisavós, taratavós, da importância do seu chão. Não só do ponto de vista histórico, educacional e cultural. e da luta dos antepassados para firmá-la digna de orgulho. Mas familiar, como deveriam cuidar de suas casas, filhos, noras, tios, pais, genros e amigos.
De outro modo, oito lideranças estaduais governistas contra dois mandatos municipais de prefeitos da oposição aos aliados do Palácio. Uma equação que, por força dos fatores, tem produzido soma negativa à população da cidade e às instituições de governo num regime democrático e republicano subordinado ao voto democrático popular e universal.
Um vídeo que mobilizou as redes sociais da cidade ontem, postado por um casal de servidores da saúde suplicando por uma UTI para o pai, também servidor da saúde (Hospital Dona Regina), com 30 anos de serviços prestados, empresta e adorna matizes ao luto que toma conta do município, desconectado também das ações do Ministério Público, rápido nas ações de desapropriação de igrejas centenárias na cidade, mas lerdo na cobrança de atendimento público obrigacional das esferas competentes.
Luiz Gonzaga (há quatro dias suplicando por tratamento adequado) aguarda morimbundo uma UTI menos de 20 dias após outra publicação semelhante de duas filhas de outro portuense tradicional, João Terror que foi a óbito depois de dias à espera de UTI.
O caso não é mais emblemático por repetitivo. Mas parece doer na cidade, dada a iminente ocorrência de similitude das causas e efeitos numa escalada não diária, mas em tempo real. Ainda assim não retira os parlamentares de sua zona que não é mais de conforto. Mas intuo já cinzenta e envergonhada.
O abandono do Hospital Regional de Porto (que já foi referência de atendimento e é o mais antigo do setentrião norte-goiano) não tem UTIs e nem ambulâncias. Há um mês governo e parlamentares anunciam-nas como providenciadas. Mas até ontem não instaladas.
O perigo da mora é explícito e contradiz nova promessa da Secretaria de Saúde amplificada ontem que, na prática, renova a determinação do Governo de 27 de agosto de 2020 para a cidade. Ontem prometeu-se 82 UTIs de Norte a Sul quando o mesmo governo já o havia prometido em meados de fevereiro deste ano.
O governo tem acertos no combate ao Covdi-19 e não lhes faltam recursos financeiros. Ainda que suas ações carreguem a mais absoluta boa-fé e que tenha ajustado as contas do Estado desajustadas há mais de duas décadas, entretanto, o tratamento dispensado a Porto Nacional com seus 53 mil habitantes, 40 mil eleitores, 283 anos de fundação, 159 anos de emancipação política e berço da luta de criação do Estado é indiscutivelmente inadequado, execrável e beira à dispensa de avaliação de consequências.
Sob a pública e silenciosamente ensudercedora covardia política, adesista ao extremo tangencial das obrigações públicas remuneradas e complacente de seus representantes no Legislativo estadual que a tudo assistem vestidos de impavidez tão colossal quanto temerária, como se pudessem colocar cercas em seus quintais e separá-los do olhar crítico sobre suas omissões.
E que tem consequências mais sérias que suas procurações cassáveis por aqueles que as delegaram.


