Sábado, 24 de Out de 2026

Gramsi às avessas: há mais que simples contestação na manifestação de setores culturais contra Secretário na presidência de conselho do segmento

luizarmandocosta 21/08/2020 510 visualizações

 A movimentação de entidades do setor cultural (divulga-se na casa de uma centena delas no Jornal do Tocantins nesta sexta) levantando-se contra a eleição do Secretário da Agência de Turismo do Estado para presidir o Conselho Estadual de Políticas Culturais é emblemática

Melhor seria para o governo abrir mão do cargo e deixar a categoria escolher livremente entre os próprios artistas do que o próprio Secretário, artista que não é (intuo), comandar uma política cultural na suposição de que o exercício burocrático do cargo o credencie, por si só, à tarefa, tangenciando, ainda mais preocupante, estatutos morais e éticos, apesar da legalidade atribuída à decisão.

O antagonismo de pensamentos nela expresso cuidaria de expor apenas democrático confronto de idéias não fora o anacronismo, ademais, da defesa de sua elevação ao cargo feita pelo Secretário que, representando o Executivo, acaba por, não contestado, demonstrar uma idéia de governo em curso.

Um plano ultrapassado pela própria Constituição quando entregou à sociedade o papel de legitimar parte das decisões administrativas de governo por intermédio de conselhos populares.

Presente em outras investidas do poder público no controle (estão aí Igeprev, Sindicatos e que tais) de órgãos consultivos e fiscalizadores da sociedade, teve, agora, exposição maior em face da militância cultural que, já vivendo à míngua por falta de política adequada para o setor, não teria muito o que perder não certificasse o valor à sua matéria prima.

O governo comandando um conselho de políticas culturais favoreceria, por lógica, que a força governista determinasse (com as formas de convencimento que possui) a política do setor, em detrimento dos envolvidos, razão maior de sua própria criação. Uma contradição e um paradoxo já que governos não "fazem cultura". Quando muito, a fomentam.

Na verdade, o que o Secretário expõe, no método, meio e forma, o filósofo italiano Antônio Gramsi pregou (e o PT que nele bebeu, tentou fazer no Brasil) de forma inversa: a ocupação do Estado pela população por intermédio da tomada de posições nas instituições.

O governo do Estado indica querer (pela ação do Secretário) o contrário: a ocupação do governo das entidades comunitárias. Expandindo a hegemonia que já possui no Legislativo e em outros poderes. Eliminando a sociedade civil em favor da sociedade política.

Mais não bastasse, como o conselho é responsável pela fiscalização das aplicações dos recursos no setor (e determinação dessa política), não precisa ser muito esperto para concluir sobre o final dessa história: a raposa cuidando do galinheiro.

Não é certamente medida de governo que queira transparência. Uma soma negativa, tomando-se o apoio da classe artística a outras decisões governamentais no setor. E que delegou ao governo ativos consideráveis nos últimos meses.

É certo modo risível, portanto, a explicação do Secretário de que foi eleito democraticamente. Se o governador disputar uma eleição entre os secretários sobre o melhor administrador do Estado, não precisa ser um oráculo para saber antecipadamente o vencedor.

Do ponto de vista político, o setor cultural tem bom respaldo da sociedade. Pode com isto jogar luz em outras decisões de governo assemelhadas, dada a brutalidade vernacular da Carta do Secretário. Que, se não tratou a classe artística de forma deselegante e grosseira na defesa de sua eleição, estuprou, por certo, a capacidade cogniscente, não só dos operários da arte.

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