Porto Nacional parou ontem para celebrar os 251 anos. Entreposto dos garimpeiros do arraial de Monte do Carmo na beira do Matança (hoje ribeirão Água Suja no caminho de Palmas por causa da lavagem do ouro) a cidade tem história relevante: 158 anos só de emancipação política e berço cultural da criação do Estado.
Desde cedo ali se aprendia a narrativa de Felix Camoa, o canoeiro que deu início ao povoado no porto de travessia (de que Mestre André/que entrevistei no início da década de 90 já próximo dos 100 anos mas então lúcido como poucos/foi sucedâneo na nossa contemporaneidade), o massacre de Pontal, o hino do município (que começa com "a Brasília cidade de Porto", antes da criação de Brasília), da bandeira, da independência, nacional e a Marselhesa francesa. As escolas públicas ensinavam como disciplinas curriculares obrigatórias música, francês e latim.
Antes mesmo da criação da rodovia Belém-Brasília, era base da Aeronáutica e do Exército e de Eduardo Gomes e Lysias Rodrigues, com três vôos semanais de grandes companhias aéreas (privadas e públicas) para o Norte e Sul do país: Aerolíneas, Cruzeiro, Varig, Vasp e FAB.
E recebeu tanto o presidente marechal Castelo Branco quanto o tenente Luis Carlos Prestes. O primeiro respeitoso ao Bispo Don Alano Marie de Noday (a igreja era a autoridade na região na falta de ação do governo federal que já temia a ocupação da Amazônia, um grande vazio estratégico de potencial mineral, madeira, água imensuráveis cobiçado por outros países ) e aos moradores. O outro pilhou a cidade, apropriou-se da já pouca comida dos moradores e abusou das mulheres dos sertanejos (também empastelou/fechou o jornal da cidade porta-voz da luta separatista) e ganhou um monumento na praça central da Capital do novo Estado ali projetado.
Isto tudo aí não foi o suficiente para suplantar a política miúda em curso. Governo e parlamentares que buscam diariamente obituários para circular notas de pesar, ignoraram solenemente os 251 anos da comunidade portuense como a negar-lhe sua história.
Busque aí uma nota sequer do governo hoje administrado interinamente por um portuense. Se circularam, o fizeram de forma tímida ou envergonhada com alcance restrito. Encontre um posicionamento do Legislativo estadual, também comandado por um deputado da cidade. Poucos como o deputado Ricardo Ayres (de família da cidade) mostrou o rosto.
Motivo deduzível: o desempenho do prefeito, adversidades político/partidárias e as afinidades eleitorais para 2020 dos governistas. Um retrocesso político e administrativo e anti-democrático dado que governo é de todos e as eleições ainda estão a mais de ano.
A cidade, só de ICMS, entrega ao tesouro estadual R$ 190 milhões por ano (mais que uma ponte sobre rio Tocantins). Em junho, entregou ao Estado R$ 16 milhões (6% de toda arrecadação do Estado no mês de R$ 253 milhões de ICMS). Em julho, até o último dia 11, já havia depositado no Tesouro R$ 10,7 milhões.
Há entre as partes (especialmente do governo) apenas o discurso oposto. E aí o problema: não entender o sofismo de que sobre todo e qualquer argumento é possível sustentar opiniões opostas, deriva-se para a negação do argumento e da dialética, em favor da retórica e do monólogo. Ou seja: arbítrio.
De outro modo: em nome de uma política miúda que desonra a história política e cultural da cidade e do próprio Estado, a mesma régua que mantém o sucateamento do hospital regional do município e da ponte redentora que o liga às artérias modais do pais, duas de suas principais necessidades básicas, mostrou seus dentes na celebração de dois séculos e meio de história da cidade.
A segunda mais velha comunidade urbana do ex-Norte de Goiás, considerando seu início no arraial de Pontal, dizimado pelos Xerentes. Os políticos, em larga escala, ignoram que não são os mandatos que orientam a política. E sim o contrário.


