O governador Mauro Carlesse decretou luto oficial de três dias pelos 500 óbitos do novo corona vírus no Estado em 150 dias de pandemia. É uma conduta que o presidente Jair Bolsonaro não teve na ultrapassagem dos 100 mil mortos no país.
Demonstra solidariedade com as famílias, empatia com o sofrimento dos parentes e amigos das vítimas. As bandeiras serão hasteadas a meio mastro, mas a vida (e a administração pública) seguirão. Como os novos óbitos e velhos modos.
Isto levando em consideração os 35 mil contaminados e os 36,1% de isolamento social deste sábado. O segundo pior do país. Ou o segundo Estado do país com o maior número de pessoas que não estão nem aí para a Covid e suas mortes.
É como se pulassem de um edifício de 20 andares sabendo que encontrarão a morte no solo e o negassem na trajetória da queda para reafirmar suas crenças herdadas, implantadas ou assumidas. Um vôo que não é cego porque tem ponto de chegada inexorável.
Um milhão de pessoas nas ruas seguindo Jair Bolsonaro (a despeito casos e mortes e da comprovada relação causa/efeito) e apenas 567 mil guardando isolamento aconselhado pela ciência e Organização Mundial de Saúde.
O decreto 6.137/2020 (publicado no Diário Oficial da noite de ontem) aponta, entretanto, por outro lado, o fracasso do governo nas ações de prevenção e combate à pandemia nestes cinco meses. Apesar da propagada boa fé em detrimento do planejamento.
Deveria ser, assim, não só expediente político de reverência aos mortos, mas de reflexão e inflexão, daquela consequente, na estratégia até aqui utilizada que, como é notório, resultou em retumbantes 500 mortos.
Um índice de 31,8 óbitos/100 mil habitantes, algo próximo da tragédia nacional de 106 mil mortos (48,6 óbitos/100 mil). Uma taxa de mortalidade (óbitos/contaminados) de 0,014%. Contra os 0,032% do país.
O poder público consumiu este tempo todo alimentando e se realimentando do ranking nacional, sujeito a observação de proporcionalidades. Deixando de lado que 500 mortos não são apenas números estatísticos. E, na Covid, perfeitamente previsíveis e preveníveis com planejamento de ações de isolamento e no sistema de saúde.
Como em 30 dias (15 de julho a 15 de agosto) foram registrados 229 óbitos, apenas mantendo a inércia (e ignorando o avanço de 26% das mortes em duas semanas/G1 ontem), não se afasta que, até outubro o Palácio possa novamente decretar luto oficial. Agora, pela tragédia de mil mortes provocadas pela Covid-19 no Estado.
É, com efeito, situação que não se justifica a algo próximo de R$ 1 bilhão já repassado pelo governo federal ao governo estadual e municípios de abril a agosto. Só para a pandemia.


