O governo decidiu fazer alterações na administração direta. A Medida Provisória 03 (de 30 de janeiro publicada na noite de ontem) cria a Secretaria de Igualdade Racial e regulariza a denominação da Secretaria de Cidades, Habitação e Desenvolvimento Regional, sem a Infraestrutura. Na verdade, a pasta coordenada por Tiago Benfica já era tratada com essa denominação.
O governo, desta forma, fica com 30 secretarias. Na MP publicada, desconhece-se os motivos da exclusão da Secretaria de Representação em Brasília, que tem sido um instrumento eficiente do governo. Não creio que o Governo dispensasse o indiscutível trabalho do secretário Carlos Manzini
Pode ter sido um cochilo da Casa Civil. E aí para o desatento, o governo, ainda que criasse uma Secretaria, se mantivesse com as mesmas 29 com que se movimentava. E que a oposição tem-lhe criticado.
A criação da Secretaria de Igualdade Racial já era uma promessa de Wanderlei Barbosa desde a posse de Lula. Mas Secretarias custam orçamentos e tratativas políticas.
Influenciadores que se dizem lideranças dos movimentos negros celebraram-no nas redes sociais. Diferente da criação da Superintendência de Igualdade Racial quando lacraram Cínthia Ribeiro.
Contra a proporção que não os igualaria, negando a subtese ativista: Palmas tem 313 mil habitantes, o Estado um milhão e meio. Cinco vezes mais. Uma antítese irrefutável na dimensão da estrutura necessária e dos recursos orçamentários disponíveis.
A pauta, desta forma colocado, extrapolaria a luta por igualdade. No Estado, a população negra (IBGE/2022) – pele escura – é de 12,54% da população. De pele branca seriam 29,68%. A lideranças negras engrossam o caldo contabilizando os pardos (57,24% da população do Estado).
Um desdobramento compreensível por fundado em orientação política do IBGE acerca de dados numéricos, mas que não muda a cor da pele. Ninguém é, de fato, negro, porque o IBGE assim o determina.
É quando a raça perde para a estatística. E quando esta lhe dá volume, ainda que volátil mas com poder político de atração.
E porque isto é importante? Não se vê costumeiramente os pardos sendo vítimas de racismo!!!!! Nem tampouco um movimento dos pardos!!!! O cerne da questão. Ainda que pardos sejam também eventuais vítimas de agressões. Mas estas, com eles, não são consideradas pela cor. Seriam negros não negros.
E para os pardos, é favorável que sejam tratados como negros em função das cotas. Mas tem desvantagem, por exemplo, no discurso dado que um pardo certamente teria maior dificuldade para assumir, por exemplo, uma Secretaria de Igualdade Racial. Ou seja, a cor que o inclui, paradoxalmente o eliminaria.
Ainda que cor não seja garantia de defesa da raça, oprimida desde sempre, no racismo estrutural que deve ser combatido pela sociedade como pelo poder público.
Quer ver: sou pardo (no Certificado de Reservista) e meu pai é um baiano negro pedreiro que veio a pé para o Tocantins na década de 40 e encontrou-se com minha mãe (branca), de tradicional família portuense. Sou,portanto, negro. Ainda que branco. Teria, por certo, resistência da militância para liderar um movimento ...negro.
Estudei e sai de casa (Porto Nacional) quando não existiam cotas, passei num minivestibular da ETFGo (hoje Instituto Federal de Educação) para Agrimensura (o mais concorrido à época) sem cotas e entrei na universidade pública (UFGo) - Direito/o 3° mais concorrido em Goiàs então - sem cursinho preparatório para vestibular por falta de grana.
Fui aprovado em concursos públicos da Prefeitura de Goiânia, Ministério da Previdência Social, Polícia Federal e Caixa Econômica Federal. Sem cotas. Destes aí, só não trabalhei na PF por influência política na época da ditadura militar.
Fiz todos os exames pré-contratação e no dia expliquei ao então superintendente da PF de Goiás, Francisco Barros Lima, na última entrevista antes da contratação, os meus motivos que hoje talvez fosse diferente.
Assim quando militantes entram aqui contra posionamentos políticos, confundindo meio com causa e, pior, com diversionismos e divisionismos, resta-me refutá-los. Não na causa, mas na forma e método. E aí os mais rasos tem o argumento pobre de sempre, no racismo inverso: eu seria um branco, ainda que negro.
No Estado Wanderlei (ele mesmo um negro) tem à disposição na academia e fora dela doutores, especialistas e sociólogos que podem realizar um trabalho competente no setor.
Numa região sertaneja, habitada (desde antes da criação do Estado) por quilombolas, mamelucos, cafusos (cafuçus, como diziam), mulatos, caboclos e crioulos.
E cujo primeiro presidente da Assembléia Legislativa (lá em 1989) foi um professor negro de raíz (chegava a ser azul de tão negro), deputado Vicente Confessor. E que depois elegeu-se prefeito de Novo Alegre ali nas barrancas das Serras Gerais, onde nascera e vivera quase na divisa com a Bahia.
Participei da cobertura da instalação do Estado, da primeira eleição do presidente do Legislativo e posse do primeiro governador Siqueira Campos,alí no Ginásio de Miracema num dia de calor infernal.
A figura daquele negro, de estatura enorme, tão humilde como imponente no tamanho e cor, deu realce à representação da conquista do ex-Norte de Goiás.
Ou seja, os nativos já tinham sua causa. E seus líderes. A roda da luta de raça não foi inventada agora.
De tão relevante que é o cargo de Secretário de Igualdade Racial num Estado assim formado, o Governador não pode cair na esparrela de transformá-lo numa moeda de troca a influenciadores digitais militantes.


